terça-feira, 30 de junho de 2009


Saudades de mim...


Luz em movimento
sons
vozes na escada
pensamentos
livres
entre e passado e o presente
imagens
saudades
silêncio!

''Origem das duas Fridas. Recordação. Devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina de minha idade. (...) Não me lembro de sua imagem, nem de sua cor. Porém sei que era alegre e ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse nenhum peso. Eu a seguia em todos os seus movimentos e contava para ela, enquanto ela dançava, meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Porém ela sabia, por minha voz, de todas as minhas coisas...''

Diário de Kahlo, sobre a tela As Duas Fridas


nostalgia

You sing about waking up in the morning
But youÂ’re never up before noon
You look completely different from those straights
Who walked around on the moon
The clothes you wear
Would suit and old times baloons
YouÂ’re allways nowhere
But youÂ’ll realize pretty soon
ThatÂ’s all that you care
IsnÂ’t worth a twelve bar tune

You wonÂ’t believe youÂ’re just one more flower
Among so many flowers that sprout
You just feel faintly pround when you hear they shout
Very loud: "youÂ’re not allowed in here, get out"
ThatÂ’s what rockÂ’nÂ’roll is all about
ThatÂ’s what rockÂ’nÂ’roll is all about
I mean, thatÂ’s what rockÂ’nÂ’roll was all about


nostalgia (thatâ’s what rockâ’nâ’roll is all about)

caetano veloso


"Se detemos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas idéias e instituições. A classe é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história". (Thompson, 1987, p. 11).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"Nesses 500 anos de história, em quase tudo a gente saiu perdendo. Mas há um ponto em que nós podemos ser ufanistas: a literatura, e, principalmente, a poesia de Carlos Drummond de Andrade".
A afirmação é do filósofo Bento Prado Jr.

O Historiador

Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.

Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'


domingo, 28 de junho de 2009

Hoje a poesia tomou conta de tudo
de mim, do silêncio, do branco na tela
a poesia que dormia
agora grita

RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

INCENSO FOSSE MÚSICA

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

"Quanto mais me despedaço, mais fico inteira e serena."
Cecília Meireles

Edgar Allan Poe

(...) Não fui, na infância, como os outros

e nunca vi como outros viam.

Minhas paixões eu não podia

tirar de fonte igual à deles;

e era outra a origem da tristeza,

e era outro o canto, que acordava

o coração para a alegria. (...)

EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Charles Baudelaire

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Estragon: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist?

“Quem quer, não a liberdade, mas o Estado, não deve brincar de Revolução.”
— Mikail Bakunin
Coragem
para esquecer
para partir
para silenciar
para deixar de amar
para ver

Goya

Preste bem atenção:

Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.

Vladimir Maiakóvski
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

***

Vladimir Maiakóvski é o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam.

E porque não dissemos nada...

Na primeira noite, eles se aproximam

e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,

pisam as flores, matam nosso cão.

E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra

sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,

e, conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,

já não podemos dizer nada.

Maiakovski

A primeira qualidade do caminho espiritual é a coragem. O mundo parece ameaçador e perigoso para os covardes. Estes procuram a segurança mentirosa de uma vida sem grandes desafios, e armam-se até aos dentes para defender aquilo que julgam possuir. Os covardes acabam construindo as grades da própria prisão. (Ghandi)

terça-feira, 23 de junho de 2009

sábado, 20 de junho de 2009

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Federico Garcia Lorca
(...)Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos... (...)

Tempo Rei
Gilberto Gil
(...)Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita

Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito(...)

Tanto Amar
Chico Buarque
Não vá achando que está tudo bem
que tudo é assim tão fácil
Já tentei te dizer que há sentimentos demais em mim
Que dizem muito sobre mim mesma
e pouco sobre você...
Já tentei calar
Fugir
Ficar
Esquecer
Para além dessas palavras que nada dizem
Que se perdem tão facilmente
Soam altas
Mas sem nenhum sentido
Como se tudo se espalhasse como o vento
Quando a noite cai
e você não está mais aqui
Como se outras vozes ecoassem
e fizessem pedidos
e mostrassem outros caminhos
e as luzes na sala, a música, pensamentos....
mostrassem outra direção
Para além de toda a inquietação
que te acompanha...

"A eternidade é o estado das coisas neste momento."
A hora da estrela - Clarice Lispector
"Onde aprender a odiar para não morrer de amor?"
Clarice Lispector

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"A Arte é uma mentira que diz a verdade".
Pablo Picasso

Picasso

terça-feira, 16 de junho de 2009

Drummond

"A poesia com o tempo? A relação da poesia com o tempo, naturalmente, vem disso que todos nós vivemos no tempo e dentro do tempo, condicionados por ele. Então, a poesia que nós fazemos, mesmo não parecendo referir-se a esse tempo, ela traz a marca do tempo que nós vivemos, mesmo não sendo uma poesia estritamente temporal, não abordando temas que circulam hoje, que são hoje considerados importantes. Mas a poesia, a meu ver, se considerada na sua expressão mais pura, ela transcende o tempo, é exatamente uma das formas de transcendência do tempo, como a arte em geral, porque a ciência já não é assim. Um conhecimento científico da atualidade perdeu completamente o valor hoje, só tem valor histórico, mas um poema, como os poemas de Homero, os poemas de Virgílio, os poemas da Horácio na antiguidade clássica, hoje podem ser lidos, exigem naturalmente uma certa formação cultural, como se tivessem sido escritos hoje. A Arte de Amar de Ovídio é atualíssima, os detalhes que ela enumera a respeito do modo de amar, das carícias que podem ser feitas, das reações masculinas e femininas, das conseqüências deste ou daquele impulso são coisas que acontecem na vida inteira. Então, a poesia refletindo isso, ela por sua vez é eterna. Também porque nós precisamos às vezes de um certo refúgio contra o tempo, queremos nos libertar, queremos ficar livres da pressão demasiada dos acontecimentos. Onde nós procuramos? Nós procuramos na música, nas artes plásticas, ou procuramos na poesia, são formas de transcender o imediato e o real e fugir a ele, nos elevando acima dele".

Mais um pouco de Chico

"No começo eu queria ser Rubem Braga, escrevia crônicas nos jornais do colégio. Depois quis ser escritor russo. Depois virei escritor francês, fui virando Flaubert, Zola, Proust, acabei sendo Céline, eu adorava Louis Ferdinand Destouches, dito Céline. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, eu já estava para ser Kafka, quando um colega me disse para deixar de ser besta e me mandou ler em português. Foi mais ou menos nessa época que virei Guimarães Rosa. Depois virei músico e parei de ler. Também li muito Graciliano, Vinícius, Bandeira, João Cabral, muito João Cabral."


Eu penso em cidades para dormir. Fico imaginando essas coisas, porque para pegar no sono tem de ficar inventando histórias. O único passo para você entrar no sono que eu conheço, a não ser que seja um sonífero, é a imaginação. Você cria um mundo e vai para lá. Tem uma hora que você percebe que está pegando no sono, e esse mundo começa a ficar meio solto, frouxo. Às vezes a gente já está dormindo, meio que acorda e fala "oba, já estou entrando no sono". E um desses pensamentos bons ou úteis, soporíferos, é a invenção de cidades. Aí chego na cidade, tem o aeroporto, a avenida. E desenhava cidades, algo que gostava muito de fazer, mas não tenho tido muito tempo. Qualquer hora posso voltar à ativa.

Chico citando Drummond

"Sim, proponho que se acabe com esse negócio de “este país é uma merda”. Além de ciclotímico, brasileiro é muito auto-referente. Uma vez um italiano me perguntou por que é que aqui há tanta música falando em Brasil, Brasil, Brasil. Drummond já dizia que o Brasil precisa descansar de nossas terríveis carícias".
(...) O sonífero não tem mais efeito imediato, e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos. Ouço ruídos de gente, de vísceras, um sujeito entubado emite sons rascantes, talvez queira me dizer alguma coisa. O médico plantonista vai entrar apressado, tomar meu pulso, talvez me diga alguma coisa. Um padre chegará para a visita aos enfermos, falará baixinho palavras em latim, mas não deve ser comigo. Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco. (...) Trecho de Leite Derramado, de Chico Buarque.
Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar (...)

Não vale a pena/Maria Rita/Composição: J. E P. Garfunkel

sábado, 13 de junho de 2009


Eu tenho mais o que fazer!

Viver!

" Há um tipo de amor que nos faz pensar que tudo é possível. Você pode ter um amor assim, por isso não se contente com menos." Do filme Noites de Tormenta






Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.

Nietzsche

” ‘Deverias ver os jardins de Milão,’ disse ela em voz alta. Mas a quem?

Não havia ninguém. Suas palavras dissipavam-se. Como se dissipa um foguete. As chispas, depois de haverem riscado a sua trajetória na noite, somem-se no seio dela, a escuridão retomba, escorre sobre o perfil das casas e das torres; os flancos ermos das colinas suavizam-se, desaparecem. Mas, embora hajam desaparecido casas e colinas, a noite está cheia delas; sem cor, sem janelas,existem mais maciçamente, expressando o que a franca luz do dia não pode transmitir – a turbação e suspensão das coisas aglomeradas na terra; confundidas na treva; privadas do alívio que traz a aurora, quando, molhando as paredes de branco e gris, tocando cada janela, alçando a bruma dos campos, descobrindo as vacas vermelhas que pastam tranquilamente, tudo é mais uma vez revelado aos olhos; tudo existe de novo. – Estou sozinha; estou sozinha! – exclamou, junto à fonte do Regent’s Park”

* Trecho original e traduzido de Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf.
http://lafemmerompue.wordpress.com/tag/mrs-dalloway/

Amor até o fim



Amor, não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim, eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar
Amor
É como a rosa num jardim
A gente cuida,a gente olha,
A gente deixa o sol bater pra crescer, pra crescer
A rosa do amor tem sempre que crescer
A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar
Amor não tem que se acabar
Até o fim da minha vida eu vou te amar
Eu sei que o amor não tem
Não tem que se apagar
Até o fim da minha vida eu vou te amar
Eu sei que o amor não tem que se acabar

(Composição Gilberto Gil)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Onde está a poesia?
A poesia das coisas, onde está?
Dizem que está na rua,
nos olhos de quem lê...
Ou está em festa... Será? Desconfio...
Nas areias finas
que escorrem entre os dedos,
Dentro de nós,
em cada palavra carregada de sentimentos
Em mim, em ti,
Em toda a parte
Nas pessoas, nos sorrisos,
nas folhas que caem em tardes de outono
nas ondas
nos ventos
nos cabelos
A poesia está aqui, está no ar,
Esta na escola. !?!?
A poesia não está no papel?
Está morrendo?
Está na música
Está na alma
está perdida
Está em algum lugar....
Clarear

"Duermen en mi jardin
las blancas azucenas, los nardos y las rosas,
Mi alma muuuuy triste y pesarosa
a las flores quiere ocultar su amargo dolor".

Rafael Hernandez / Ibrahim Ferrer (Buena Vista)

amor de loca juventud


Mueren ya las ilusiones del ayer 
Que sacié con lujurioso amor 
Y muere también con sus promesas crueles 
La inspiración que un día le brindé.
 Con candor el alma entera yo le dí 
Pensando nuestro idilio consagrar 
Sin pensar que ella lo que buscaba en mí 
Era el amor de loca juventud.

buena vista social club

Composição: Rafael Ortiz


terça-feira, 9 de junho de 2009

... a alma do historiador é semelhante a  do leitor das páginas policiais dos jornais; elas são sempre iguais e são sempre interessantes, pois o cachorro esmagado hoje não é o mesmo de ontem, e, de uma maneira mais geral, porque hoje não é ontem.

Paul Veyne - Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Trad. Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. 2aª edição. Brasília: UNB, 1992

segunda-feira, 8 de junho de 2009

(...) A minha herança pra você
É uma flor com um sino, uma canção
Um sonho, nem uma arma ou uma pedra
Eu deixarei

A minha herança pra você
É o amor capaz de fazê-lo tranqüilo
Pleno, reconhecendo o mundo
O que há em si (...)

 Vanessa da Mata
abro a porta vejo a fumaça no asfalto 
o sol me cega eu sigo em frente 
encaro o sol deixo meu rastro para trás 
o dia corre assim veloz 
o dia corre além de nós .... (Zeca Baleiro)

Escada de Livros

No silêncio as coisas se desacomodam
Surgem espaços 
Entre tantas inverdades
Tantas coisas sem sentido
Vazias
Energias desperdiçadas
Idealizações
Coisas de um coração
que sente mais do que deveria
Distância
Calma, saudade
Frio.... palavras... silêncio....
Amor... Amor!!! Amor????
 
Talvez...
Se...
Imagens que passeiam na mente
Não foram embora
Não morrem
Voltam lentamente
entre cheiros e sons
Poderia calar
mas o que sinto
não mudará

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém 
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda

sábado, 6 de junho de 2009

Cecília Meireles

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado, 
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cecília Meireles

Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"

Cecília Meireles

É preciso não esquecer nada: 
nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes 
nem a oração de cada instante. 


É preciso não esquecer de ver a nova borboleta 
nem o céu de sempre. 


O que é preciso é esquecer o nosso rosto, 
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 


O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, 
a idéia de recompensa e de glória. 


O que é preciso é ser como se já não fôssemos, 
vigiados pelos próprios olhos 
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

É preciso esquecer...

É preciso esquecer...
esquecer rostos, caminhos, espelhos
é preciso esquecer ruas, olhares, lágrimas,
é preciso esquecer o sofrimento
é preciso esquecer a sala, o quarto, o corredor...
é preciso esquecer sentimentos,
aqueles que enganam como se fossem ainda o que já não são....
é preciso esquecer
é preciso, não se engane,
esqueça!    

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Tempo... tempo... tempo... tempo... tempo.... tantas coisas já foram escritas sobre o tempo, mas tem dois textos que me tocam de forma um tanto particular. O primeiro é o texto de Santo Agostinho, uma reflexão insuperável sobre o tempo: "De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente existe, porque tende a não ser?"  (...) (Confissões). O outro é o que me veio a mente para escrever sobre esse tema... a letra de Caetano Veloso para a música Oração ao Tempo... 
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo... 

(...)

O tempo como um deus, Saturno ou Cronos, por isso uma oração....(?)... " por pareceres contínuo"... parece, mas não é.... o que é o tempo? Tambor de todos os ritmos? Compositor de destinos? Senhor do universo? Aquele que consome tudo o que cria? Tempo...tempo... tempo... tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

(Oração  ao Tempo - Caetano Veloso)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cecília Meireles


O Livro da Solidão

Cecília Meireles


Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)