quarta-feira, 30 de abril de 2008

Poema 20 de Pablo Neruda

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Escrever, por exemplo: A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". O vento da noite gira no céu e canta. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu amei-a e por vezes ela também me amou. Em noites como esta tive-a em meus braços. Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. Ela amou-me, por vezes eu também a amava. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la. A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo. A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços, a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

Esperemos

Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas- há fábricas de dias que virão -existem artesãos da almaque levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato.
Pablo Neruda

Consciência de si mesmo... por Pablo Neruda

Todos os caminhos conduzem ao mesmo objetivo: comunicar aos outros o que somos. Devemos atravessar a solidão e a dificuldade, o isolamento e o silêncio, a fim de chegar ao local encantado onde podemos dançar nossa dança desajeitada e cantar nossa canção Melancólica - mas nessa dança ou nessa canção são cumpridos os ritos mais antigos de nossa consciência, na percepção de sermos humanos e de cremos em um destino comum.
Pablo Neruda,1971

Não me pergunte....nada sei...

Coração inquieto
palavras soltas
tem tiro certo

Para onde vão
pensamentos vãos?
Noite adentro
flores
vazios
sentimentos

Ruas e esquinas
ladeiras e saudades
de quando ainda nada se sabia

Esperanças, sonhos,
seguir em frente
tantos lugares
vilarejos
casas, rios, pontes

ser e estar justamente ali
onde só você está

Quem te endente?
quem te ouve?
quem sabe o significado do brilho nos teus olhos?
Vida... luz... esperanças... eu, você, todos....
todos podemos sonhar
para aqueles que podem, que conseguem ver além

Que não conseguem esperar
que querem o hoje, o agora,
a mudança, sem espera,
a transformação, ser o que se quer ser
viver o que se quer viver

aonde a estrada me levar
aonde ainda não pisei
aqueles que ainda não conheci
por viagens que ainda não fiz

para além desse eterno retorno
chega de palavras vazias
de querer ser o que não se é...
de conformismo... morto... torpe... sujo
essa guerra não é minha
essa disputa é vazia
esse mundo não é o meu.

Nem eu mesma saberia explicar o que faço agora
sou mutante nesse espaço de cacos e pedras
quero as nuvens e os arcos de fumaça
onde a lua não se esconde
porque ela está onde eu quiser que ela esteja

quero as pessoas e os corpos quentes
sendo o que são, sem mentiras e subornos negros
quero a noite que chega
para que se torne parte de mim
e me leve ainda mais longe de mim mesma!

Clarear

Vacas


Bolívia


Alice Ruiz

lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?
****************

terça-feira, 29 de abril de 2008

Refúgio

Eu quero um refúgio
pra esquecer o cansaço
pra me deitar no teu braço
pra olhar as estrelas
pra falar de coisas sérias
e também de bobagens
pra olhar nos teus olhos
pra rir sem motivos
e com motivos também
pra ouvir sua voz
pra me encantar com suas palavras
pra sentir o corpo leve
e a mente sã
pra não ter hora pra dormir
nem pra acordar
pra não pensar no passado
nem no futuro
pelo menos por um instante
apenas viver!

Clarear

domingo, 27 de abril de 2008

As horas

"Não se pode encontrar a paz fugindo da vida"

"Se me disser quando fui mais feliz foram anos atrás. Me lembro de uma manhã levantei ao amanhecer havia um sentimento de 'possibilidade'. Sabe... Um sentimento. Então, me lembro de pensar comigo mesma. 'Então esse é o início da minha felicidade. E claro que sempre haverá mais.' Nunca me ocorreu...que não era o começo, era felicidade. Foi aquele momento, aquele momento."

"Seria fácil dizer que me arrependo. (...)Mas o que seria se arrepender de algo que não se tem (ou teve?) escolha?"

"Mas ainda terei que enfrentar as horas, não é? Quero dizer, as horas depois da festa. E as horas depois delas."

"Sempre os anos que foram nossos, Sempre os anos, Sempre o amor, Sempre as horas."

"Era a morte.Eu escolhi a vida."

"Luto sozinha na mais profunda escuridão e só eu sei o estado em que estou..."

"O Tempo de esconder acabou. O tempo de arrepender-se, se foi. O tempo de viver é agora."

Frases do filme As Horas - um filme sobre mulheres, sobre escolhas e "não escolhas"... sobre a vida e o desespero da vida... sobre Virginia Woolf...


Seguindo...

Não saberia me calar diante de você
Houve uma tentativa de fingir que não sinto nada
Mas foi inútil...

Não foi sua voz
Não foi seu rosto
Apenas algumas palavras...

Seu rastro deixa um cheiro de saudade.

Rosa Luxemburgo



Epitáfio de Rosa Luxemburgo
Aqui jaz
Rosa Luxemburgo,
judia da Polônia,
vanguarda dos operários alemães,
morta por ordem dos opressores.
Oprimidos,
enterrai vossas desavenças!
Bertolt Brecht
O memorial Epitáfio, escrito pelo jovem Brecht, em 1919, foi musicado por
Kurt Weill em 1928, com o nome de Requiem de Berlim. Também sobre Rosa Luxemburg, o escritor e historiador trotskista Isaac Deutscher escreveu :
Com o seu assassinato, a Alemanha dos
Hohenzollern celebra o último triunfo e a Alemanha nazista, o primeiro.

sábado, 26 de abril de 2008

Caminhar...buscar refúgios....superação...


Daniel na cova dos leões

Aquele gosto amargo do teu corpo Ficou na minha boca por mais tempo De amargo então salgado ficou doce, Assim que o teu cheiro forte e lento Fez casa nos meus braços e ainda leve Forte, cego e tenso fez saber Que ainda era muito e muito pouco. Faço nosso o meu segredo mais sincero E desafio o instinto dissonante. A insegurança não me ataca quando erro E o teu momento passa a ser o meu instante. E o teu medo de ter medo de ter medo Não faz da minha força confusão Teu corpo é meu espelho e em ti navego E eu sei que a tua correnteza não tem direção. Mas, tão certo quanto o erro de ser barco A motor e insistir em usar os remos, É o mal que a água faz quando se afoga E o salva-vidas não está lá porque Não vemos.
Legião Urbana

Nos seus olhos

Olhe nos meus olhos
E diga o que você
Vê quando eles vêem
Que você me vê?
Olho nos seus olhos
E o que eu posso ler?
Que eles ficam melhores
Quando eles me leêm
Eu leio as suas cartas
Eu vejo a letra
Meu Deus que homem forte
Que me contempla
Sou sua mas não posso ser
Sou seu mas ninguém pode saber
Amor eu te proíbo
De não me querer
Olho nos seus olhos
E sinto que você
Faz eles brilharem
Como o astro-rei
Olhe nos meus olhos
E o que você vai ver?
Seu rosto iluminado
A Lua de um além
Eu leio as suas asas,
Borboletas
Meu Deus que linda imagem
Me atormenta
Sou seu mas eu não posso ser
Sou sua mas ninguém pode saber
Amor eu te proíbo
De não não me querer
De não me querer
não me querer
De não me querer

Nando Reis

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Inconstância

Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer…
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também…
nem eu sei quando…
Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

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O amor em Florbela.... passar a vida a amar e a esquecer... sentir a magia de amar... amar sem arder não é amar... como dizia Vinicius... "é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não....". Um sol a apagar-se e outro a acender-se... é o desabrochar na adversidade, ver a beleza além da dor...
saber e não saber... apenas não ter medo de amar! C...

Mente inquieta

Mente inquieta
como inquieto é o coração
que não cabe no peito
a espera de amar...
amar e esquecer o tempo
para não esquecer de mim mesma!

domingo, 20 de abril de 2008

As mãos e os frutos

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugênio de Andrade

Por isso... estou partindo....

"Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha dentro de ti"(Nietzsche)

Como?

Como foi possível perder-te...
Sem nunca ter te achado?

Nada fomos
além da fantasia

Nada vivemos
além da minha própria saudade.

sábado, 19 de abril de 2008

Cabo Verde - África


hummmmm


Ernesto "pai"


Não te reconheço

Não te reconheço nos meus sonhos
Mas te sinto como parte de mim
Não fecho os olhos e lembro do seu rosto
Mas se estás perto não te quero longe
Não penso mais em te querer
Mas tua presença me engana e aquece a alma...
Contradição
Negação
Mentira?
Verdade?
O que será
que pesa no coração?
Querer e não querer
Amar e esquecer
ou esquecer e ainda amar?

E o sonho que dura?
E a dor que sente?
E a saudade daqueles outros olhos
que não devem nem ao menos imaginar
que ainda estão em meus pensamentos.....

Para onde foram tantos desejos
que da pele não consegue escapar
sua presença não pode negar
do beijo, da noite, do luar,
da vontade de querer ser e estar
e de mesmo assim negar
pois o medo e a covardia
são mais fortes que o querer!

Isso realmente não seria fácil...
É mais fácil negar, fugir, esquecer
mentir pra si mesmo
criar fantasias
e torcer
pra que os olhos, a presença,
o calor
não traia suas certezas....

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte- que é uma questão
de vida ou morte -será arte?
Ferreira Gullar

segunda-feira, 14 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008

O amor em Drummond

Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.


Nudez. em A Vida Passada a Limpo.
1958.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Alberto Caieiro

E há poetas que são artistas/ E trabalham nos seus versos / Como um carpinteiro nas tábuas!...

Hoje...

Já não me dói...
Já é indifernete
Já olho e esqueço
durmo e amanheço

Te vejo
sem prazer nem razão
e fecho pra ti meu coração!

Clarear

Eu amo...

EU AMO TUDO o que foi, Tudo o que já não é, A dor que já me não dói, A antiga e errônea fé, O ontem que dor deixou, O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa

Eu

Eu, eu mesmo... Eu, cheio de todos os cansaços Quantos o mundo pode dar. — Eu... Afinal tudo, porque tudo é eu, E até as estrelas, ao que parece, Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... Que crianças não sei... Eu... Imperfeito? Incógnito? Divino? Não sei... Eu... Tive um passado? Sem dúvida... Tenho um presente? Sem dúvida... Terei um futuro? Sem dúvida... Ainda que pare de aqui a pouco... Mas eu, eu... Eu sou eu, Eu fico eu, Eu...
Eu, eu mesmo... Alvaro de Campos

sábado, 5 de abril de 2008

caminhos


Você nos meus caminhos

e não poderia ser diferente

porque tudo estaria fora de lugar

e a noite não teria o mesmo sentido

e o coração não bateria com a mesma intensidade

os olhos não veriam toda a beleza

e não haveria pensamentos que iriam tão longe.... C


Aonde...

aonde estaria aquele livro
aquele som
aquelas palavras
aquela voz
aquela noite
aquele silêncio
aquele medo
aquela vontade
aquela saudade
aquele abraço
aquele beijo
o calor
o amanhacer
aonde
aonde
e quando

C

Minha sede de liberdade


É estranho
como minha sede de liberdade
me leva até você
como você representa
a necessidade de caminhar
de ir
e vir
e calar
e ouvir
e ver você sorrir
O seu mundo
tudo novo pra mim
e velho ao mesmo tempo
pois já estava aqui
mas eu não queria ver
você abriu janelas
portas
caminhos
acendeu as luzes
e eu deixei você partir
mas senti você no meu silêncio
senti que você ainda tinha deixado um rastro
uma saudade
uma vontade
de saber
de viver
de querer
nos dias frios
com pouca luz
com todos os sons
muitas palavras e
muito silêncio... tudo a seu tempo... C

Amante ausente

Las lejanas montañas te ocultan de mí,
Mientras se me enciman las cercanas
Si yo tuviera un pesado martillo
Para aplastar las montañas cercanas.
Si yo tuviera alas como un pájaro
Para volar sobre aquellas más lejanas.

poema bantu

...


Hoje...só hoje

Eu não teria medo de me apaixonar por você
Não hoje
Hoje eu abriria meu corção pra você
Eu não tentaria fugir
Não me armaria contra o seu olhar
Não escaparia de você
Hoje eu não me esqueceria da sua voz
Hoje eu guardaria teu cheiro
Hoje eu fecharia meus olhos
E então veria você
Hoje eu veria que não há motivo para temer
Ou não ligaria se houvesse
Hoje apenas sentiria você
Te falaria coisas que ficaram guardadas
Te olharia de um jeito que não tive coragem
Te prenderia nos meus braços
E falaria no seu ouvido
Do jeito que você gosta
E eu sei que você gosta
Você gosta
Você gosta!!!

Clarear

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Clarear...

as idéias,
a alma
a saudade
deixar-se levar pelos pensamentos
fechar os olhos,
sentir
tocar
acordar
perceber
que querer
não é esquecer
que não é tão fácil
mesmo sabendo
que é assim que deveria ser
não mais sentir
isso que vem
e domina
tudo em mim
sem pedir licença
sem aviso
sem vontade de ir embora
que nego
e mesmo assim
insiste
briga
e aqui fica
impregnado
na minha pele, no meu sono,
na minha chama e na minha saudade!!!
(E mesmo assim... eu ainda não falaria de amor com você!)