sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

........... Pedaço de mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

CHICO

O meu amor .... Chico

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

........................................

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Amado

Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu
Fico desejando nós gastando o mar
Pôr-do-sol, postal, mais ninguém

Peço tanto a Deus
Para lhe esquecer
Mas só de pedir me lembro
Minha linda flor
Meu jasmim será
Meus melhores beijos serão seus

Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo, volto atrás
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer

Sinto absoluto o dom de existir,
Não há solidão, nem pena
Nessa doação, milagres do amor
Sinto uma extensão divina

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você



Vanessa da Mata

"e o coração de quem ama fica faltando um pedaço que nem a lua minguando que nem o meu nos seus braços. . . "
Faltando um pedaço- Djavan
E se de repente você aparecesse aqui agora?
O que seria desse momento?
Para onde iria toda essa saudade?
O que seria do seu olhar?
Desse silêncio...
Dessa espera muda e insana
Que foge a cada istante
Pra não se perder em você...

Vampiro

Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr
E eu sinto aquela coisa no meu peito
Eu sinto aquela grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração
Às vezes eu fico pensando porque é que eu faço as coisas assim
E a noite de verão ela vai passando, com aquele seu cheiro louco de jasmim
E eu fico embriagado de você
Eu fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue não corre, não, corre fogo e lava de vulcão
Eu fiz uma canção cantando todo o amor que eu sinto por você
Você ficava escutando impassível e eu cantando do teu lado a morrer
E ainda teve a cara de pau
De dizer naquele tom tão educado
"oh! pero que letra más hermosa, que habla de un corazón apasionado"
Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro
Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida que deixa na sua carne aquela ferida
Na minha boca eu sinto a saliva que já secou
De tanto esperar aquele beijo, ai, aquele beijo que nuncachegou
Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia

Caetano Veloso

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Imagens do Diário de Frida



O Diário de Frida Kahlo foi publicado no Brasil pela José Olympio Editora (com introdução de Carlos Fuentes, cometários de Sarah M. Lowe, e tradução de Mário Pontes).

Sem reservas


Quem me conhece sabe que sou uma apaixonada por gastronomia. O filme "Sem reservas", com Catherine Zeta-Jones e Aaron Eckhart ( na verdade um remake de “Simplesmente Martha” (Bella Martha, 2001), uma produção ítalo - germânica - austríaca - suíça, porém, agora com ares hollywoodianos e mais comerciais) tem como pano de fundo a boa comida. Na verdade, estou escrevendo aqui não tanto para falar do filme, mas para comentar uma cena que me deixou com vontade de aprender a fazer um Tiramissu. O filme é bom, muitos dizem que o original é melhor. Eu não assisti ao original então não posso dizer nada a respeito... Confesso que gosto de filmes que tratam de gastronomia, como o Ratatouille, que é simplesmente delicioso, já o assisti pelo menos umas quatro vezes... Mas voltando a cena do Tiramissu...O personagem Nick vai jantar na casa de Kate e leva uma sobremesa... um Tiramissu. Mas o que é um Tiramissu? De um modo geral... bem geral, ele leva na camada de baixo, biscoitos champagne umedecidos no café forte com vinho marsala; na próxima camada, gemas batidas com açúcar e mais vinho, logo depois encorporadas ao queijo mascarpone com as claras em neve, ou cream cheese e chantilly de creme de leite fresco; por cima, raspinhas de chocolate amargo e canela... hummmm ... e olha que Nick leva a sobremesa num tupperware para o jantar. A trilha sonora de Phillip Glass é notável e muito bonita, com destaque para a cena da cabana na sala de Kate... Ah... amanhã mesmo vou comprar os ingredientes do Tiramissu!!! Quer provar?


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Frida Kahlo


''Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.''

''(E o que mais dói) é viver num corpo que é um sepulcro que nos aprisiona (segundo Platão) do mesmo modo como a concha aprisiona a ostra.''

''Querem que eu retrate cinco mulheres mexicanas importantes em nossa história; faço pesquisas para saber que tipo de baratas foram essas heroínas, que tipo de psicologia era o seu fardo, a fim de, ao pintá-las, as pessoas possam diferenciá-las das mulheres comuns e vulgares do México, as quais, para mim, são mais interessantes e poderosas do que as damas mencionadas.''

''Você poderá me dizer que também se pode viver lá sem os coqueteizinhos e sem as 'parties', mas então você não passa de um zé-ninguém e sei perfeitamente que o mais importante para todo o mundo na Gringolândia é ter ambição, chegar a ser 'somebody' e, francamente, eu já não tenho a mais remota ambição de ser ninguém [....], não me interessa em nenhum sentido ser 'la gran caca'.''

[Frida não gostava dos EUA, a quem chama sempre de Gringolândia. Acha os 'gringos' , como diz, 'arrogantes de nascença'.]

''Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.''

Diário de Frida Kahlo

A Dança

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.
.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.
.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
.
Se não assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Pablo Neruda

Saudades


Saudades! Sim... Talvez... e porque não?... Se o nosso sonho foi tão alto e forte. Que bem pensara vê-lo até à morte. Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte. Deve-nos ser sagrado como o pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar. Mais a saudade andasse presa a mim!

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Cem anos de Solidão

Um dos livros mais bonitos e interessantes que já li foi "Cem anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez. A história se passa na cidade imaginária de Macondo, e conta a trajetória de seus fundadores liderados pela família Buendia-Iguaran. José Arcadio Buendía é o patriarca da família e Úrsula Iguarán a matriarca. Trata-se de um casal de primos, que se casaram assustados pelo mito de que o casamento entre familiares poderia gerar filhos com rabos de porco. O casal tem três filhos: José Arcadio, Aureliano Buendía e Amaranta. Aliás, ao longo da leitura descobrimos outros José Arcádios, Aurelianos e Amarantas, como se o tempo não passasse, ou se repetisse através das novas gerações. Com a chegada dos ciganos a Macondo entramos em contato com um personagem misterioso e que se fará presente em diferentes situações na história, fazendo-nos mais uma vez perder a noção de tempo. Seu nome é Melquíades e sua relação com a família é tão próxima que passa a ter na casa dos Buendia um quartinho só seu, local mágico onde o tempo não se faz sentir. Ele carregava consigo as escrituras que prediziam o futuro da família. O tema central da obra é a solidão, solidão esta que todos os membros da família, de formas distintas, passam a ter com ela grande intimidade. A casa, o principal cenário onde a maior parte das histórias acontecem, passa por várias transformações e carrega consigo os fantasmas daqueles que já se foram.

“O Coronel Aureliano Buendía arranhou durante muitas horas, tentando rompê-la, a dura casca da sua solidão. Os seus únicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade”.


Na solidão extrema dos Buendia percebemos em várias situações os "privilégios da simplicidade"... Aliás, cada personagem descobre sua própria forma de sobreviver e conviver com a solidão.

"Por muito tempo Aureliano não abandonou o quarto de Melquíades. Aprendeu de cor as lendas fantásticas do livro sem capa, a síntese dos estudos de Hermann, o tímido, os apontamentos de ciência demonológica, as chaves da pedra filosofal, as predições de Nostradamus e as suas pesqusias sobre a peste, de modo que chegou à adolescência sem saber nada da sua época, mas com os conhecimentos básicos do homem medieval. A qualquer hora que entrasse no quarto, Santa Sofía de la Piedad o encontrava absorto na leitura."

Assistimos a fundação de Macondo, acompanhamos a trajetória dos Buendía, a evolução histórica de uma parte da civilização, a chegada do cinema, do trem, dos conflitos políticos, da invasão do capitalismo americano, da indiferença daqueles que se julgam mais fortes, da manipulação da história... Tudo isso através de um universo mágico, triste e envolto de poeira e saudade. Tudo aliás cheira a saudade e remete a destruição. Macondo permanece na memória como um sonho distante...

Autor: Gabriel García Márquez
Páginas: 384
Tradução: Eliane Zagury
Biblioteca Folha

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Maus, o holocausto em quadrinhos


Conheci Maus através de um colega do curso de Pós-graduação. Em um dos seminários ele passou a "Obra Completa - Maus - A História de um Sobrevivente", publicada pela Companhia das Letras em 2005 (em formato de livro). Uma história que mostra ao leitor, de maneira inusitada, com os judeus sendo representados por ratos, os horrores da Segunda Guerra Mundial. A história contada através dos quadrinhos nos traz um impressionante relato da trajetória de um judeu em meio à guerra. Os judeus são retratados como ratos, os alemães como gatos, os americanos como cachorros e os poloneses como porcos. Fiquei bastante curiosa, por isso fiz essas anotações na minha agenda e quero ainda comprar e ler o livro com cuidado. O autor é Art Spiegelman. A história foi narrada pelo próprio pai ao filho Art, que foi publicada originalmente em duas partes - a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte o livro ganhou o Prêmio Pulitzer de literatura. Quando eu já tiver lido e refletido sobre a obra, volto a comentá-la aqui.

Latuff


Consulte o site: http://tales-of-iraq-war.blogspot.com/2009/01/both-sides-of-gaza-conflict.html

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Latuff

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.



Bertold Brecht

(1898-1956)

Doze Regras de Redação da Grande Mídia Internacional Quando a Notícia é do Oriente Médio

Regra Um - No Oriente Médio, são sempre os Árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.
Regra Dois - Os Árabes, Palestinos ou Libaneses não têm o direito de matar civil. Isso se chama "Terrorismo".
Regra Três -Israel tem o direito de matar civil. Isso se chama "Legitima Defesa".
Regra Quatro - Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama "Reação da Comunidade Internacional".
Regra Cinco - Os Palestinos e os Libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isso se chama "Seqüestro de Pessoas Indefesas".
Regra Seis - Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos Palestinos e Libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10.000, dos quais 300 são crianças e 1000 são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter os seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos Palestinos. Isso se chama "Prisão de Terroristas".
Regra Sete - Quando se menciona a palavra "Hezbollah", é obrigatório a mesma frase conter a expressão "apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã".
Regra Oito - Quando se menciona "Israel", é proibida qualquer menção à expressão "apoiada e financiada pelos Estados Unidos". Isso pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo existencial.
Regra Nove - Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões "Territórios Ocupados", "Resoluções da ONU", "Violações de Direitos Humanos" ou "Convenção de Genebra".
Regra Dez - Tanto os Palestinos quanto os Libaneses são sempre "covardes" que se escondem entre a população civil, a qual "não os quer". Se eles dormem em suas casas com as sua famílias, a isso se dá o nome de "Covardia". Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso chama "Ações Cirúrgica de Alta Precisão".
Regra Onze - Os Israelenses falam melhor o Inglês, o Francês, o Espanhol e o Português que os Árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidade do que os Árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama de "Neutralidade Jornalística".
Regra Doze - Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são "Terroristas Anti-Semitas de Alta Periculosidade".

Fonte: http://cloacanews.blogspot.com/

História ao gosto do freguês

A cobertura da "guerra" em Gaza pela Imprensa Internacional tem sido lamentável. Coloco "guerra" entre aspas porque pra mim isso não é uma guerra e sim um massacre. Primeiro porque não há igualdade de condições, de poder bélico, de organização social e política entre as partes envolvidas. Segundo, porque se vê abertamente que o desejo de Israel é tomar a Faixa de Gaza , nem que pra isso tenha que matar todos ali com a desculpa de que está atacando o terrorismo do Hamas e garantindo a segurança do seu povo. Reproduzo abaixo um texto escrito por Antonio Luiz M. Costa na Carta Capital de 14 de janeiro de 2009, páginas 42 e 43. Ele dá uma resposta muito inteligente ao jornalista português João Pereira Coutinho, que em sua coluna na Folha de S. Paulo de 06 de janeiro, propôs um exercício de história alternativa através do qual defendia o ataque israelense aos palestinos em Gaza. Vale a pena ler:

"Apoiar incondicionalmente as ações israelenses nunca pareceu tão tolo. No caso do jornalista português João Pereira Coutinho, em sua coluna na Folha de S.Paulo de 6 de janeiro, chegou-se aos mais profundos abismos da estupidez. Propôs um exercício de história alternativa, no qual o Brasil foi atacado em 1967 por três potências latino-americanas (sic), uma delas o Uruguai (!), que acaba ocupado. Em 2005, o Brasil se retira do Uruguai, como “primeiro passo para a existência de dois Estados soberanos, o Brasil e o Uruguai” (sic), mas o Rio Grande do Sul é bombardeado por terroristas uruguaios, apoiados por uma Argentina “liderada por um genocida que deseja ter capacidade nuclear para riscar o Brasil do mapa”. O Brasil então invade o Uruguai “para terminar, de uma vez por todas, com a agressão de que é vítima”.

Difícil imaginar recurso mais patético do que tentar mobilizar o chauvinismo dos brasileiros convidando-os a se imaginarem ameaçados pelo Uruguai e pela Argentina – mesmo que, além disso, essa ficção não falsificasse radicalmente a história e o contexto do conflito. Experimentemos tornar a analogia um pouco mais completa e assumir o ponto de vista do outro lado, por mais que isso possa soar politicamente incorreto.

Suponhamos que na Segunda Guerra Mundial não houvesse ocorrido o Holocausto, mas acabasse em completa destruição, desindustrialização e desmembramento completo da Alemanha (como chegou a propor o chamado plano Morgenthau, em 1944) e que sua consequência fosse o êxodo de milhões de alemães da Europa, impelidos pela destruição de sua indústria a se estabelecerem em outras partes do mundo.

O Brasil, no qual já havia uma importante colônia alemã e que acontecia ter sido ocupado pelos britânicos em uma guerra anterior, é seu destino preferencial. As nações ocidentais penitenciam-se da culpa pelo sofrimento dos refugiados alemães inocentes aprovando um plano para dividir o país entre nativos e imigrantes. Desafiados pelos nativos, em 1948 os imigrantes alemães e os descendentes de alemães que já viviam no Brasil se apoderam de três quartos do País e o transformam em um Estado de Teutônia, ao qual germano-descendentes de todo o mundo são convidados a imigrar, criar “um posto avançado da civilização” e “fazer florescer o sertão”.

Uma minoria de brasileiros permanece em Teutônia como cidadãos de segunda classe. A grande maioria é obrigada a implorar asilo na Argentina, Bolívia, Paraguai e Venezuela, ou se aglomerar em campos de refugiados no Rio de Janeiro e Nordeste, que se unem a outras nações latino-americanas. Estas, em 1967, desafiam a Teutônia e são derrotadas, o que resulta na ocupação total do que restava do território brasileiro.

A Teutônia continua a receber imigrantes e incentiva seu estabelecimento nos territórios recém-ocupados, distribuindo essas terras aos recém-chegados. Mas alguns brasileiros reagem à ocupação formando organizações de resistência que cometem atentados contra o governo e civis teutônicos. Algumas dessas organizações exigem a expulsão dos invasores e a restituição total do antigo território do Brasil, outras, conformam-se em aceitar um Estado brasileiro dentro dos limites de 1967 – Estado do Rio e Nordeste.

Os teutônicos não dão mostras de levar a sério essa possibilidade, apesar das pressões internacionais, até que o custo excessivo do conflito e da ocupação leva seu governo a decidir se retirar do Rio de Janeiro, imensa favela de 30 milhões de refugiados, e de municípios áridos, esparsos e superpovoados do interior do Nordeste, cercados de muralhas, postos de vigilância e prósperas fazendas teutônicas.

Apesar da resistência militante de alguns milhares de teutônicos que haviam recebido terras perto de Nova Friburgo, a retirada é efetivada e a administração desses guetos entregue a uma “autoridade brasileira” gerenciada por um partido corrupto e ineficaz, que continua a reivindicar inutilmente a independência dentro dos limites de 1967. Sua sede é um bolsão isolado em torno de Juazeiro do Norte, cercado de tropas teutônicas.

Algum tempo depois, a maioria dos refugiados elege para a autoridade uma facção radical da resistência, como a única capaz de impor alguma ordem e trazer alguma esperança e dignidade, principalmente no inferno no qual se transformou o antigo Estado do Rio. Seus territórios são impedidos de receber recursos e se comunicar com o mundo exterior, seu governo é sistematicamente sabotado e depois dissolvido pelo presidente títere, cuja guarda reprime violentamente a facção radical nos guetos nordestinos. A “autoridade brasileira” não consegue, porém, recuperar o controle do Rio de Janeiro, onde seus partidários são facilmente derrotados pela facção radical. Seus militantes, em protesto contra o bloqueio continuado de seu território, lançam pequenos foguetes que ocasionalmente atingem alvos aleatórios nas cidades “teutônicas” de Neubonn (Juiz de Fora) e Neuköln (Taubaté). Teutônia reage com bombardeios que matam e mutilam dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças e com uma invasão maciça do Rio de Janeiro.

Ah, sim, e os militantes têm a simpatia do governo populista do México, que opera centrais nucleares, pesquisa o enriquecimento de urânio e cujo presidente, dado a bravatas, diz um dia que “o regime que ocupa São Paulo precisa desaparecer das páginas do tempo” – o que a mídia teutônica traduz como “riscar Teutônia do mapa”.

Absurdo? Ridículo? Sem dúvida. Mas algo menos que a versão do senhor Coutinho. Fantasia por fantasia, esta se parece mais com o que se passou e continua a se passar no Oriente Médio.

Mas o fato é que história no condicional, seja qual for seu potencial retórico e literário, não tem valor científico, jurídico ou político. Convenhamos em deixar os absurdos retóricos de lado e analisar o mundo real".

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Proust

Só se ama o que não se possui completamente.
"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos".

Eugenio de Andrade


Um quarto que seja seu

"Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. Sem esse poder, a Terra provavelmente seria pântano e selva. (...) Eis porque tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se".

WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade
Nenhum coração é tão inteiro como um coração partido...
ditado hassídico
Deixei de me preocupar com o tempo. Não é uma linha, é um vento, uma onda do mar que é preciso seguir (...) O único tempo real é acordar de manhã, esfregar as mãos e dizer: vamos viver este dia. in JL, 21/11/2007. Rui Chafes

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Maio 68

Eu preciso da razão hoje, mais do que o vinho.
As vezes arriscamos dizendo aquilo que poderia ter ficado no silêncio...
Dizer acaba com a beleza do que está oculto...
Então me arrependo do que foi dito...
Você consegue não dizer nada, enquanto eu estrago tudo...
Parece que há coisas que meu coração não quer aprender
Uma delas é como esquecer você!
Fico aqui lutando, pra você não ver meu coração sangrar
O silêncio se volta contra mim
Transforma-se um uma arma
... faz um corte profundo...
Não há liberdade no amor
O amor sempre te prende
Grita
Eu podia ter deixado
Tudo vago como estava antes
Sem respostas
Sem cores
No silêncio que você deixou
Mas de onde vem a sua força?
Por que não consigo apagar tudo isso?


"O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer...." Cazuza
Escrever é um prazer egoísta

São apenas palavras

Solidão acompanhada

Onde você se cala
Eu escuto
Mais do que deveria
Ou poderia
Por que você não continua a caminhar?
Não precisa me avisar, falar daquilo que eu sei que não é real
Que você esconde
Porque tem medo
Sem paciência pra entender
Aquilo que está nas entrelinhas
Prefiro agora não pensar
No abismo que são seus olhos
É melhor ocultar
O que está acima da razão
A condição de não querer
Mas ainda sentir
(O que a razão nega)
Ela até queria brincar de esquecer...
De não mais procurar o seu amor...
Antes ela o via em tudo que estava ao seu redor
Deve ser...
Ela não se preocupava
E hoje ela não pensa mais em caminhar nas ruas pra te procurar
Já não ouve as vozes dos seus passos
Nem deseja se aventurar
A fim de te acompanhar
E se o tempo insitir em trazer você
Ela vai fechar os olhos e deixar a noite te cobrir.
Parece que você já passou do ponto
E aí, ela já nem sabe mais...
Ela quer paz, sem precisar fingir que você está tão perto
E negar, fugir da sua presença
Ela já cansou de imaginar porque essa dor não quer ir embora

Além do que se vê

Moça, Olha só o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê

Sei que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Mais do que somos todos nós
Você supõe o céu...
Sei que o vento que entortou a flor
Passou também por nosso lar
E foi você quem desviou
Com golpes de pincel

Eu sei, é o amor que ninguém mais vê
Deixa eu ver a moça
Toma o teu, voa mais
Que o bloco da família vai atrás

Põe mais um na mesa de jantar
Porque hoje eu vou "praí" te ver
E tira o som dessa TV
Pra gente conversar
Diz pro bamba usar o violão
Pede pro Tico me esperar
E avisa que eu só vou chegar
No último vagão

É bom te ver sorrir
Deixa vir à moça
Que eu também vou atrás
E a banda diz: assim é que se faz!

Marcelo Camelo

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Homens em tempos sombrios

No livro "Homens em Tempos Sombrios" Hannah Arendt apresenta figuras humanas que sempre a fascinaram. O título do livro veio do poema de Brecht "Aos que virão depois de nós". Assim Brecht começa o poema ... "Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia...". Para Hanna Arendt, mesmo em tempos sombrios temos o direito de esperar alguma iluminação, "e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra...". Abaixo, o poema completo de Bertolt Brecht:

Aos que virão depois de nós


I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma
linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma
testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a
terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o
direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a
minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.


Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o
ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A
cólera contra a injustiça
faz a
voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem
em nós
com um pouco de compreensão.

************************

Entre as figuras humanas que a fascinaram estão Rosa Luxemburgo, Martin Heidegger, Walter Benjamin e o próprio Bertolt Brecht. Para ela, falar sobre poetas (no caso - Brecht) era uma tarefa incômoda. "Os poetas são para se citar, não para se falar (...) A voz dos poetas , porém, concerne a todos nós em nossas vidas privadas e também na medida em que somos cidadãos... ".

Ela continua: "A relação dos poetas com a realidade é de fato o que Goethe dizia ser: eles não podem arcar com o mesmo peso de responsabilidade dos mortais comuns; precisam de uma dose de distanciamento e no entanto não mereceriam o pão que comem se nunca fossem tentados a trocar esse distanciamento por uma vida como a dos outros. Nessa tentativa Brecht marcou sua vida e sua arte como poucos poetas jamais fizeram; ela o levou ao triunfo e à catástrofe".


Vale a pena ler: Arendt, Hanna. Homens em Tempos Sombrios. Companhia das Letras, São Paulo, 1999.






sábado, 3 de janeiro de 2009

Latuff

Latuff é um cartunista brasileiro que trabalha para a imprensa sindical. Em 1999 viajou até a Cisjordânia e de lá pra cá tornou-se um simpatizante da causa Palestina. Boa parte de seu trabalho é dedicado a esse tema.

"O papel da arte não é ser correia de transmissão de políticas reacionárias. A arte que vale a pena hoje é aquela que questiona exatamente esses modelos. Ela tem que te colocar na parede, tem de fazer você sentir. Não precisa ser o tempo toda engajada, mas falta arte engajada. Comparativamente, por exemplo, à época da ditadura, que você tinha muitos artistas que davam a cara para bater, que produziam arte de contestação no cinema, no teatro, na poesia, no desenho, pintura, escultura. Mas hoje, de acordo com o pensamento vigente, não existe mais necessidade de se levantar, de reagir, de questionar porque nós estamos na democracia. “Resistir só faz sentido quando você tem tanque na rua...” É um ledo engano pensar a liberdade dessa forma, porque hoje se vive num sistema autoritário, de pensamento único, em que a mídia dita para você o que é ou não verdade.

Democracia é o que tem lá nos Estados Unidos, que só dois partidos centralizam a disputa? Democracia é o Paquistão, porque os Estados Unidos apóia o regime? O governo norte-americano ao mesmo tempo em que diz que Cuba é uma ditadura, não se refere como ditadura ao governo do Paquistão, porque é pró-americano. Dizem que o Hamas ganhou as eleições legítimas, na Palestina. Houve observadores internacionais... Mas eles são considerados terroristas. Depois do 11 de setembro foi foda, inverteu tudo.

Então nem tudo pode ser arte engajada, porque senão fica chato. E nem tudo pode ser entretenimento, porque fica vazio. É preciso ter a combinação das duas coisas, que é o que não vemos atualmente. Hoje, é só entretenimento, e nele já tem a questão ideológica colocada, só que de maneira subliminar ou lúdica. As pessoas não percebem. Normalmente, o cara que assiste Jack Bower ou Tropa de Elite é daquele tipo: “Ah, eu não gosto de política, eu não sou político”. Mas já está sendo cooptado sem saber".

Arte Engajada - Entrevista com Carlos Latuff
Leia a entrevista completa em http://www.overmundo.com.br/overblog/arte-engajada-entrevista-com-carlos-latuff
Maurício Tragtenberg escreveu o texto "A revolta da Palestina" em 1988. Importante destacar duas frases (ou trechos) desse texto: 1) "É uma luta desigual. Um exército fortemente armado e treinado contra jovens adolescentes que atiram pedras e lutam com paus". 2) "...a criação do Estado Palestino, cuja necessidade clama aos céus". A situação não mudou muito de 88 pra cá.... aliás... só piorou... e o mundo continua calado diante dessas atrocidades!!!

A Revolta da Palestina - veja http://www.espacoacademico.com.br/028/28mt_08021988.htm

A revolta da palestina*

Maurício Tragtenberg**

Quando a 09/12/87 um caminhão israelense acidentalmente atropelou quatro habitantes do campo de refugiados palestinos de Jebalya na faixa de Gaza, pela repercussão provocada na região, iniciou-se a reação palestina na Cisjordânia e Gaza à ocupação israelense.

A maioria dos rebeldes são constituídos de jovens na faixa entre 15 e 25 anos, criados no regime de ocupação israelense, criados nos “campos de refugiados”. A reação à ocupação deus-e espontaneamente, surpreendendo as lideranças palestinas, inclusive a OLP.

Esses jovens palestinos aparecem vinculados ao grupo da Jihad Islâmica, ligado ao movimento dos Irmãos Muçulmanos do Egito. Jihad é um grupo sunita que prega uma guerra santa contra a ocupação israelense e tem sua base nas mesquitas. Por incrível que pareça, o colonizador israeli construira mesquitas nas regiões ocupadas, preocupado em desviar as forças do nacionalismo palestino. É justamente delas que surge a reação contra o neocolonialismo do Estado de Israel.

As regiões ocupadas por Israel fornecem mão-de-obra barata para Israel, especialmente na construção civil. Alguns kibutzim em épocas de entressafra empregam mão-de-obra assalariada palestina.

Essa mão-de-obra palestina da zona ocupada sai pela manhã em caminhões, dirigindo-se aos postos de trabalho em Israel, regressando ao final de cada jornada de trabalho. Esses trabalhadores não possuem autorização para pernoitarem em Israel e uma polícia especial cuida de localizar os recalcitrantes.

A ocupação israelense funda-se nas normas do direito colonial inglês, na medida em que Gaza e Cisjordânia não são consideradas zonas anexadas a Israel. A legislação colonial inglesa é uma das mais repressivas que a história moderna conheceu. Assim, a administração militar em Gaza e Cisjordânia, com base nessa legislação, pode deter por tempo indeterminado para interrogatório qualquer pessoa da área, pode deter sem mandato judicial de prisão, pode demolir ou selar casas de pessoas consideradas pelas autoridades como colaboradores de “terroristas”.

É uma luta desigual. Um exército fortemente armado e treinado contra jovens adolescentes que atiram pedras e lutam com paus.

Isso levou a moderados palestinos ameaçarem com boicote aos produtos israelenses, boicote ao pagamento de impostos às autoridades de ocupação. Desde que o exército israelense oficializou a política de espancamento, mais de 200 palestinos foram internados com fraturas.

As forças de ocupação usam o toque de recolher para disciplinar 300 mil palestinos, cercam os campos de palestinos para impedi-los de saírem dão trabalho. Até então bastava exilar alguns líderes e a “vida voltava ao normal” como diziam alguns. Hoje isso é insuficiente. A política neocolonial do atual governo Likud-Partido Trabalhista causa crises de consciência em Israel, levando 30 mil israelenses a saírem em manifestação pública em Tel Aviv protestando contra a ocupação e a violenta repressão dos palestinos. Dezenas de oficiais e centenas de soldados do Exército de Israel recusaram-se a servir nas zonas de ocupação. O movimento “Iesh Gvul” (Há Limite), criado em 19982, por reservistas que se recusaram a lutar no Líbano, produziu uma petição pública em que critica essa política neocolonial e insensata. Enquanto isso, Shamir declara que “amais haverá um Estado Palestino”. Não há dúvida que fôra precedido por Golda Meir quando ela dizia: “Os palestinos não existem”. Tanto existem que a questão palestina ocupou as manchetes da imprensa mundial nos últimos meses.

Essa política neocolonial levou o secretário do Partido Trabalhista de Israel a demitir-se. O jornal israelense “Haaretz” noticiava que psicólogos do Exército foram enviados a Gaza para tratar dos soldados israelenses abalados emocionalmente com o papel repressivo que lhes é destinado, que contradiz os valores educacionais em que foram formados, de só lutar para defender-se e não empregar violência indiscriminada contra jovens, mulheres, velhos e crianças.

Enquanto isso ocorre, Arafat declara-se pronto a discutir a confederação palestina israelense nos territórios ocupados. O Conselho Central da OLP e o Conselho Nacional Palestino, reuniram-se para discutir que estratégia adotar nos territórios ocupados. Pensam em criar um governo no exílio, isso levaria os EUA e Israel a negociarem diretamente com a OLP, pensam alguns.

A revolta palestina apresenta novos contornos. A OLP, embora não fosse a iniciadora da mesma, é ainda a organização que legitimamente representa os palestinos. Porém, aparece uma força nova: o fundamentalismo sunita. Tem ela apoio na Cisjordânia, tem força na Síria e mais alguns países árabes. Como todo movimento fundamentalista é teocrático e rígido. Caso Israel rejeite negociar com a OLP terá que enfrentar futuramente o fundamentalismo sunita. Aí a conversa será outra.

É verdade que há também o fundamentalismo religioso em Israel. Boa parte das colônias criadas nos territórios ocupados são obra do movimento “Gush Emubim” (Bloco dos Fiéis). Um dos seus representantes é a sinistra figura do rabino Kahane, que conseguiu unir judeus e árabes contra sua política cega e racista de expulsar os árabes de Israel, os que lá “sobraram”.

A revolta palestina coloca em questão a sobrevivência do neocolonialismo no século 20, seu arcaísmo. Coloca em questão a urgência de uma solução política, a criação do Estado Palestino, cuja necessidade clama aos céus. É no apoio a essa luta que os setores progressistas do mundo devem unir-se, no direito do palestino a sua autodeterminação nacional, na construção de um Estado laico.

A postergação da solução do problema palestino continuará a manter o Oriente Médio como um barril de pólvora com explosões imprevisíveis. Isso se dá no momento em que a própria URSS pretende retirar-se do Afeganistão e uma política de distenção mundial aparece no horizonte.



* Publicado in: Folha de S. Paulo, de 08.02.1988.
** Maurício Tragtenberg, 55, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (SP) e autor do livro “Reflexões sobre o socialismo”.

MAURÍCIO TRAGTENBERG