quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.


Drummond

De Alguma poesia (1930)

sábado, 26 de dezembro de 2009

"Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar!"

Gonçalves Dias

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

William Shakespeare

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Drummond

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Caetano

2010

Deus. Clara. Amor. História. Francês. Família. Caminhadas. Natação. Frutas e legumes. Clara. Água. Árvores. Escrever, escrever e escrever. Clara. Tese. Deus. Ler, ler e ler. Viagens. Arquivos e Bibliotecas. Museus. Clara. Café. Chocolate. Bons filmes. Flores. Terra. Pássaros. Vento. Paz. Frio. Calor. Frio. Clara. Vinho. Frio. Família. Livrarias. Amor. Cinema. Clara. Amigos. Música. Livros. Velas. Incenso. Novos amigos. Clara. Deus. VIDA.

Rabanada

De tanto ver, ler e ouvir sobre rabanadas nesse Natal resolvi pegar meu pãozinho amanhecido e fazer algumas pra ver no que dava. Cortei o pão em fatias médias (nem finas demais, nem grossas), misturei leite com açúcar e duas gotas de essência de baunilha, passei as fatias nessa mistura e depois em um ovo batido (como se fosse pra fazer um omelete). Enquanto fazia essa mistura deixei o óleo esquentando na frigideira. Enfim, coloquei as fatias para fritar. Virei cada uma, deixei fritar mais alguns segundos e pronto. Coloquei em um prato com guardanapos para absorver o óleo. Espalhei açúcar e canela e me sentei para experimentar a rabanada tão indicada para esses dias de festa. Hummm.... ficou uma delícia - realmente, é rápido e prático de fazer e delicioso de comer. Experimente!!!
Cheiro de incenso. Silêncio.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol (...)

Fernando Pessoa


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lua
Nua

Dando um tempo de tudo
do tédio
da dor
do barulho
...ouvindo o próprio silêncio
bom
não esquecer de si mesmo...
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário....


Nando Reis