quinta-feira, 24 de setembro de 2009

"Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer."
( Do Desejo - 1992 )
Hilda Hilst

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

(...) Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar.(...)

Tanto Mar
Chico
(...) E quando você me envolver nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia.


Chico Buarque

Embora pareça que estou apenas contando histórias de amor

Eu já não sabia mais como dizer que eu te quero tanto... (Los Hermanos)



Vai chover de novo,
deu na tv que o povo já se cansou de tanto o céu desabar,
E pede a um santo daqui que reza a ajuda de Deus,
mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim....

Santa Chuva/ Los Hermanos

quinta-feira, 17 de setembro de 2009




Saber amar
É saber deixar alguém te amar
(Paralamas)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sou assim, uma mistura de sentimentos, livros, poetas, lembranças, sons, palavras soltas, outras que parecem soltas mas não são tanto assim... poucos e valiosos amigos...

Bella Ciao

Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l'invasor.
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l'ombra di un bel fior.
E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»
«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

(Canção Popular da Resistência Italiana na Segunda Guerra Mundial)
"O que eu sou é o que me faz viver"
Skakespeare, Henrique VIII

sábado, 12 de setembro de 2009


"Enquanto isso
anoitece em certas regiões
E se pudéssemos
ter a velocidade para ver tudo
assistiríamos tudo
A madrugada perto
da noite escurecendo..."
Marisa Monte
"(...) Um instante é pouco para aproveitar... e muito para perder!"

Elizabeth Bennet - Adoro esta dança.
Sr. Darcy - De fato é muito revigorante.
(pausa.)
Elizabeth Bennet - Sua vez de falar algo, Sr. Darcy. Eu falei sobre a dança. Agora deve comentar o tamanho do salão ou o número de casais.
Sr. Darcy - Ficarei feliz em agradá-la. Por favor, diga-me o que mais gostaria de ouvir.
Elizabeth Bennet - Esta resposta serve, por ora. Talvez daqui a pouco eu observe que os bailes particulares são mais agradáveis do que os públicos. (pausa) Mas por ora, fiquemos em silêncio.
Sr. Darcy - É costume seu falar enquanto dança?
Elizabeth Bennet - Não. Não, eu prefiro ser insociável e taciturna. Torna tudo mais agradável, não concorda?
(pausa.)

Diálogo entre Elizabeth Bennet e Sr. Darcy, em Orgulho e Preconceito, filme baseado na obra de Jane Austen

Primeiro sinto o silêncio, como se somente ele nesse momento me alimentasse a alma... depois calo em meus próprios pensamentos e então procuro algo que diga aquilo que eu gostaria de dizer agora. São poucas as chances de encontrar um texto assim, mas as vezes acontece... acontece mais com Drummond, com Clarice, com Caio Fernando Abreu... também pode ser uma letra do Chico... quase sempre certeira... mas há vazios impenetráveis esperando uma presença que nunca se completa... e uma luz que nunca se apaga...
(...) Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud. (...)

Caio Fernando Abreu
Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?

Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho,

minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se

desesperada, urgente. (...)

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Que dor desses calendários
Sumidiços, fatos, datas
O tempo envolto em visgo
Minha cara buscando
Teu rosto reversivo.

Que dor no branco e negro
Desses negativos
Lisura congelada do papel
Fatos roídos
E teus dedos buscando
A carnação da vida.

Que dor de abraços
Que dor de transparência
E gestos nulos
Derretidos retratos
Fotos fitas

Que rolo sinistroso
Nas gavetas.

Que gosto esse do Tempo
De estancar o jorro de umas vidas.

Hilda Hilst
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
e sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

domingo, 6 de setembro de 2009

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.”

Caio F. Abreu
...essa paixão pelo mundo e pelo tempo. Essa visão escondida por detrás dos óculos. Essa taça fina e quase vazia. Sempre acontece algo que é de mim pra mim mesma. Não faz frio, nem calor, mas há uma sensação de aconhego que nem sei explicar. As coisas quando são vazias assustam. Não dá pra ficar calado. São tantas vidas e tantas cores, tantas palavras escritas e ditas, tantos sons e movimentos. Uma nova descoberta daquela história que se julgava perdida. E uma certa paz que vem da solidão e dos livros. Um domingo chuvoso, triste, pessoas que se vão... tempo que escorre pelas mãos, mas também forte e inexplicável, eterno para aqueles que enchergam de olhos fechados.
Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Caio F. Abreu (O Estado de S. Paulo, 3/4/1994)

O Estado de todas as culpas

Segue abaixo uma parte do artigo de Jessé Souza, "O Estado de Todas as Culpas - Ele é só associado à ‘politicagem’. E o mercado, à ‘racionalidade’: eis a trava do debate público no Brasil".

Vale as pena ler, muito interessante a análise que ele faz do Estado Brasileiro atual... (Artigo publicado no Estado de S. Paulo. Domingo, 6 de setembro de 2009-Aliás J5)


(...)

O mundo social não é perceptível a olho nu. Pode-se ver a pobreza e a desigualdade nas ruas e não se perceber suas causas. O brasileiro das ruas aprendeu a vincular as mazelas sociais do Brasil à corrupção política. A tese do Estado corrupto - ou a tese do "patrimonialismo" na sua versão erudita igualmente conservadora e frágil - mata dois coelhos com uma mesma cajadada. Como o conflito que ela cria é falso de fio a pavio - na realidade, mercado e Estado são interdependentes e igualmente ambivalentes -, ela ajuda a fabricar uma realidade que permite esconder todos os conflitos sociais reais. Pior ainda. Como uma falsa oposição é dramatizada como "conflito", tem-se a impressão de que existe efetivo debate crítico entre nós, de que temos uma esfera pública atuante, uma mídia atenta e crítica e um país politicamente avançado, quando a realidade é, ponto por ponto, precisamente o inverso.

A dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve como fachada para "representar" a política sob a forma simplista, subjetivada e maniqueísta das novelas, enquanto se cala e se esconde acerca das bases de poder real na sociedade. Toda a aparência é de "crítica social", enquanto toda ação efetiva é a da conservação dos privilégios reais. Assim, fala-se do combate aos "coronéis" e às "oligarquias" - sempre caricatamente nordestinas como o bigode de Sarney - enquanto escondem-se as reais novas oligarquias responsáveis por abocanhar quase 70% do PIB sob a forma de lucro ou juros reduzindo os salários a pouco mais de 30%. Nos países europeus social-democratas essa proporção é inversa. As falsas oposições escondem oposições reais. O falso "charminho crítico" da dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve para esconder e desviar a atenção para a luta de classes que cinde o país entre privilegiados que possuem um exército de pessoas para servi-los a baixo preço e dezenas de milhões de excluídos sem nenhuma chance nem esperança de mudança de vida.

Para todo um exército de analistas que se concentram no "teatro" da política - com suas fofocas e escaramuças diárias entre senadores e deputados com poder decisório entre o nada e o muito pouco - falar-se em "luta de classes" é um tabu. Luta de classes é coisa do passado, tem a ver com greves de trabalhadores e sindicatos que estão desaparecendo ou perdendo importância. Essa é a cegueira da política como "espetáculo" pseudocrítico para um público acostumado à informação sem reflexão. A luta de classes só é percebida nas raras vezes em que as classes oprimidas logram alguma forma de reação pública eficaz. Condenam-se ao esquecimento todas as formas naturalizadas e cotidianas do uso e abuso do trabalho barato e não valorizado. Um pequeno exemplo. O exército de babás, empregadas, faxineiras, porteiros, office-boys, motoboys, que permitem que a classe média brasileira possa dedicar seu tempo a trabalhos valorizados e bem pagos relegando o trabalho pesado e mal pago a outra classe de seres humanos que tiveram o azar de nascer na família (e na classe social) errada. Isso não é "luta de classes"? Apenas porque não há piquetes, polícia e sangue nas ruas? Apenas porque essa dominação é silenciosa e aceita, dentre outras coisas porque também eles, os humilhados e ofendidos, ouvem todo dia que o nosso único mal é a corrupção no Senado ou em algum órgão estatal?

E para as classes média e alta? Não é um verdadeiro presente dos deuses ter privilégios que nem seus consortes europeus ou norte-americanos possuem e ainda poder ter a consciência tranquila de quem sabe que o mal do Brasil está em "outro" lugar, lá bem longe em Brasília, um "outro" abstrato, mau por definição, em relação ao qual podemos nos sentir a "virtude" por excelência? Não se fecha com isso um círculo de ferro onde necessidades sociais e existenciais podem ser manipuladas por uma política e uma mídia conservadora e seu público ávido por autolegitimação e por consciência tranquila?

Para Max Weber - pensador crítico mal lido entre nós como inspiração para a tese do patrimonialismo - os ricos, saudáveis e charmosos, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos, saudáveis e charmosos. Eles querem saber que têm "direito" a serem ricos, saudáveis e charmosos em oposição aos pobres, doentes e feios. É essa necessidade o verdadeiro fundamento e razão do sucesso da tese da suspeição do Estado entre nós. Ela serve como uma luva para não perceber e naturalizar um cotidiano injusto e ainda transferir qualquer responsabilidade para uma entidade abstrata e longínqua, garantindo boa consciência e aparência de envolvimento crítico na política.

A cortina de fumaça do falso debate acerca da demonização do Estado serve para deslocar a única e verdadeira questão do Brasil moderno: uma desigualdade abissal que separa gente com todos os privilégios, de um lado, de subgente sem nenhuma chance real de uma vida digna desse nome, de outro lado. O culpado desse crime coletivo não é apenas o bigode de Sarney. É toda uma sociedade infantilizada por falsos debates e por falsas prioridades e que ainda se pensa - suprema autoindulgência - como crítica e atuante. Esse projeto político não é de partidos, até porque o consenso conservador atinge todos indistintamente. As tímidas iniciativas de política social do atual governo, por exemplo, são mero paliativo da efetiva redenção dos secularmente humilhados e ofendidos. O que fazer com os recursos do pré-sal poderia e deveria ser o estopim para um novo debate brasileiro, corajoso, maduro e generoso, por oposição ao debate covarde, infantil e mesquinho que temos hoje.


*Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora, é autor de A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive, a ser publicado em outubro pela UFMG

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto
o poeta está melancólico

Carlos Dummond de Andrade


terça-feira, 1 de setembro de 2009

(...) Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? (...)

Caio Fernando Abreu
"Esta alma, ou vida dentro de nós, sem opção concorda com a vida exterior. Se alguém tiver a coragem de perguntá-la o que pensa, ela está sempre dizendo exatamente o oposto do que as outras pessoas dizem." Virgínia Woolf
”Não estou fazendo nada errado só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas”
Caio Fernando Abreu
Convém em certas ocasiões...

ocultar o que se traz no coração!

Molière