sexta-feira, 30 de outubro de 2009

História de sobreviventes

Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo, disponível na internet, reconstitui saga de judeus expulsos da Alemanha nazista e dos países colaboracionistas e reúne documentos que revelam a postura do Brasil diante do genocídio (Interior de Pobres II/Lasar Segall)

http://www.agencia.fapesp.br/materia/11287/historia-de-sobreviventes.htm

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Francisco Ferrer foi o fundador da Escola Moderna em Barcelona, em 1901. Escola mista, laica, racional e científica. Possuía biblioteca, tipografia, editava manuais e obras pedagógicas. Cresce como um foco intenso de cultura popular. O maior princípio da escola fundada por Ferrer é a liberdade da criança. Por todos os motivos citados a escola sofreu ataques violentos, Ferrer em 1909 foi preso, julgado, condenado a morte e executado. Seu último grito: "Viva a Escola Moderna". No Brasil os libertários protestaram sobre a morte de Ferrer. Denunciaram o controle da Igreja sobre a Educação e lutaram pela educação laica. Em 1912 João Penteado fundou a Escola Moderna de São Paulo, conhecida como Escola Moderna No. 1, no Belenzinho. Aqui a Escola Moderna também sofreu perseguição e foi fechada pelas autoridades republicanas em 1919. O momento de lembrar os 100 anos da morte do educador espanhol (que tanto influenciou a fundação de escolas libertárias no Brasil) também é momento de refletir se conquistamos a tão sonhada liberdade na Educação!!!

100 anos da morte de Francisco Ferrer i Guardia

Pré-iniciação científica

Do USP Online

Na quinta-feira (29), a USP e a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo realizam a exposição, seguida de seleção e premiação, dos trabalhos desenvolvidos no Programa de Pré-iniciação Científica por alunos do ensino médio da rede pública.

O evento começa a partir das 9h30. Estarão presentes no Centro de Convenção Rebouças o professor José Goldemberg, ex-reitor da USP; Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo; e o atual governador do estado, José Serra.

A participação é aberta e gratuita. O Centro de Convenção Rebouças fica na Av. Rebouças, 600, Cerqueira César, São Paulo, próximo ao metrô Clínicas.

Mais informações: (11) 3078-2356

sábado, 24 de outubro de 2009

(...) Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.


(Caio Fernando Abreu - Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)

Esquecendo você

Eu vou ter que passar minha vida cantando uma só canção
Eu vou ter que aprender a viver sozinho na solidão
Eu vou ter que lembrar tantas vezes o riso dos olhos seus
Eu vou ter que passar minha vida tentando esquecer este adeus
Eu vou ter que esquecer seu sorriso e o pranto dos olhos meus
Eu vou ter que esquecer seu olhar na hora do adeus
Eu vou ter que esquecer minha vida
Só você não percebe por que
Eu vou ter que passar minha vida esquecendo você

Tom Jobim

Só tinha de ser com você

É, só eu sei
Quanto amor eu guardei
Sem saber que era só prá você

É, só tinha de ser com você
Havia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você

É, você que é feita de azul
Me deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonita demais
Se ao menos pudesse saber

Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

Composição: Antonio Carlos Jobim / Aloysio de Oliveira

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma…
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

(...)

Florbela Espanca
não é indecisão. é apenas ser aquilo que se é. é não forçar pra fingir que se é indiferente. ela dorme no quarto cor de rosa. toca um acalanto bem baixinho. na sala os livros no momento não saem da estante. pensamentos em paz. coração em paz. não há saudade. nem tormento. não há perguntas. nem respostas. só uma paz que vai tomando todos os espaços. o cheiro do pão... do café... e o dia passa com mais sentido do que qualquer outro até então vivido.

Ziraldo

Calvin e Deus

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Oração

O louva-deus, ereto, num caule de junquilho,
reza , de mãos postas, com punhais cruzados,
como um bandido calabrês...

João Guimarães Rosa

sábado, 17 de outubro de 2009

Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua do estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo. (...)


Cantares do sem nome e de partidas, de Hilda Hilst

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"...E agora um pedido. Tenho uma fome pelo norte, não imagina. Mande-me umas fotografias de sua terra. Há por aí obras de arte coloniais? Imagens de madeira, igrejas interessantes? Conhecem-se os seus autores? Há fotografias? Acredite: tudo isso me interessa mais que a vida. Não tenha medo de me mandar um retrato de tapera que seja. Ou de rio, ou de árvore comum. São as delicias de minha vida essas fotografias de pedaços mesmo corriqueiros do Brasil. Não por sentimentalismo. Mas sei surpreender o segredo das coisas comesinhas da minha terra. E minha terra é ainda o Brasil. Não sou bairrista."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 26/09/1924. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo.Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 34.)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Porque tudo na vida é passado/ rebusco-te nas fotos da infância/ o vestidinho pregueado/ alguma trança/ que se desfez ao vento/ cariciando seus cabelos finos// Porque agora é também ontem/ habitando esparsas latitudes/ em contração e espasmo o pensamento/ delineia a sempre mesma busca// Ainda hoje um raio claro/ povoou teu rosto, fragmentou-se em sombras/ efêmeros detalhes/ e em teus olhos se firmou/ como um sorriso frágil/ a serenar-se em fugaz arquitetura// Revisito tua imagem cotidianamente/ e assim o meu amor se expande/ em tessituras de vôo e altura/ Porque o passado/ é um presente que perdura.

Luíza Mendes Furia
"Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão".

Carlos Drummond de Andrade, no poema A Bruxa

Talvez o senhor ainda mantenha a opinião que no momento é impossível haver qualquer reforma sem que haja um coup de main, sem o que era antes chamado revolução e que na verdade não é nada mais do que um choque. Esta segunda idéia que eu entendo, perdôo e que estaria disposto a discutir, tendo eu mesmo compartilhado dela durante um longo tempo, meus estudos mais recentes me fizeram abandoná-la totalmente. Não creio que tenhamos de lançar mão dela para triunfar e, conseqüentemente, não devemos colocar a ação revolucionária como um meio para alcançar a reforma social, já que esse pretenso meio seria apenas um apelo à força, à arbitrariedade, em resumo, uma contradição. Eu coloco assim o problema: provocar o retorno à sociedade, por meio de uma combinação econômica, da riqueza que ela perdeu graças a uma outra combinação. Em outras palavras, utilizar a Economia Política para transformar a teoria da Propriedade contra a Propriedade de forma a criar aquilo que os socialistas alemães – vocês – chamam de comunidade e que eu pessoalmente me limitarei, por ora, a chamar de liberdade ou igualdade. Creio possuir os meios para resolver este problema dentro de muito pouco tempo: preferiria, portanto, queimar a propriedade em fogo lento a lhe dar novo alento fazendo uma noite de São Bartolomeu com aqueles que a têm nas mãos.

(in Correspondência, 1874 – 1875)

Trecho de carta de

Pierre-Joseph Proudhon para Karl Marx.

Lyon, 17 de maio de 1846.


Entre o homem e a ambiência social há uma ação recíproca. Os homens fazem a sociedade tal como é, e a sociedade faz os homens tais como são, resultando disso um tipo de círculo vicioso: para transformar a sociedade é preciso transformar os homens, e para transformar os homens é preciso transformar a sociedade.
Malatesta

(...)Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.(...)
Drummond


Amar

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

(...)

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Drummond

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha

paulo leminski
fonte: caprichos&relaxos
Ed. Brasiliense, 1983

já passa de meia noite. sinto sono, mas a vontade de escrever é maior. leio biografias. penso na tragédia que é saber amar. aqueles que amaram e se deram ao amor de forma profunda e bela terminaram sozinhos e tristes. não pense que eu é que estou sendo trágica. basta estudar com atenção a vida dos grandes poetas. sei que há exceções. mas a regra é a tristeza e a solidão. tudo bem. estou mesmo sendo trágica esta noite.

Louvor do esquecimento- B. Brecht

Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.

O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

"A gente não fica louca de repente. Não. O enlouquecimento vem aos poucos, diante dos desencantamentos que se multiplicam e crescem cada vez mais. Fica então tudo um desencanto. Fica então uma mancha escura em tudo. Uma ferida. Uma palavra que se anula. Uma palavra que se perde. Uma palavra que deixa de existir. A loucura vem aos poucos, com a destruição de tudo. Os valores estão todos invertidos. A mediocridade ganha o espaço, a violência avança e as pessoas indefesas se escondem dentro de si mesmas, porque temem pela vida. O enlouquecimento vem aos poucos. Vem vagarosamente. Às vezes leva anos até se instalar. Então se instala. Então a gente chora. Depois a gente ri. Depois a gente foge. Depois a gente se procura. Depois a gente não se encontra. Depois a gente corre de encontro aos rios. Depois a gente procura o mar. Depois a gente conversa com as gaivotas. Depois a gente torna a chorar. Depois a gente torna a rir. Depois a gente fica em silêncio. O enlouquecimento vem aos poucos. A solidão também. O nada. O que não resta mais. Depois a gente se rende.

Depois a gente reza. Depois a gente tenta construir um aceno nas mãos e percebe que as mãos foram decepadas. É assim".

Alvaro Alves de Faria

Enlouquecimento

http://blogs.jovempan.uol.com.br/poeta/2009/04/23/enlouquecimento/


Pétala

O seu amor, reluz que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino pétala, de estrela caindo bem devagar
Oh meu amor, viver
É todo sacrifício feito em seu nome
Quanto mais desejo, um beijo, um beijo seu
Muito mais eu sinto gosto em viver

Por ser exato, o amor não cabe em sí
Por ser encantado, o amor revela-se
Por ser amor, invade e fim

Djavan

sábado, 10 de outubro de 2009

" (...) É um engano isso de afirmarem que a gente pode reviver, tornar a sentir as sensações e os sentimentos do passado. As memórias são fragilíssimas, degradantes e sintéticas para que possam nos dar a realidade que passou tão completa e grandiosa. Na verdade o que a gente faz é povoar a inteligência de assombrações exageradas e secundariamente falsas. Esses sonhos de acordado, poderosamente revestidos de palavras, se projetam da inteligência pros sentidos e dos sentidos pro ambiente exterior, se alargando cada vez mais. São as assombrações. Diferentes pois das sensações, as quais do ambiente exterior pros sentidos e destes pra inteligência vem se diminuindo cada vez mais. E essas assombrações, por completo diferentes de tudo quanto passou é que a gente chama de ´passado´."

Mario de Andrade
(...) E a vida me apaixona mesmo em todas as suas formas de viver! (...)
Mario de Andrade

"Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis."

Italo Calvino
"Eu acredito em Deus, sei que isso é incontestável dentro de mim. Uma crença primária, ingênua, bruta, inviolável, permanente, não carecendo de provas intelectuais, sinto Deus. Sem misticismo nenhum: sinto Deus. De maneira que tão entregue como vivo às volúpias de viver, quero ter meus quinze dias de colóquio bem consciente com a morte, pra que na contemplação prematura da Divindidade, possa como o coitado do Macunaíma já incapaz de gozo e misticismo, viver um bocado do brilho inútil das estrelas." (Carta de Mario de Andrade a Alceu Amoroso Lima, 1930)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

... pois o amor é que nem espelho... tem que ter reflexo...

Loucura (?)

quem eu fui. quem eu passei a ser. quem eu ainda não cheguei a ser. os muitos eus se apresentam, me surpreendem, alguns vão embora e outras acabam de chegar. são muito eus nesse desafio cotidiano que é viver.
o amor é urgente. mas também é urgente esquecer. é urgente adormecer e acordar sem nenhum lamento. esquecer o ódio, a mágoa, a solidão, esquecer a dor, o sonho e os pesadelos também. ver o mar, as estrelas, caminhar. ler, fechar os olhos e recomeçar. partir para aquilo que já está traçado e que o passado não deixava acontecer. ver o mundo que se abre, destruir certas palavras carregadas de ódio, incertezas, crueldades... multiplicar a vida, ouvir palavras doces, ler muito Guimarães Rosa, ouvir música clássica, ver o pôr do sol. viver é urgente, respirar, ver a beleza que se esconde por trás de tantos silêncios...

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
Amar o perecível,
o nada,
o pó,
é sempre despedir-se.

Hilda Hilst

"Te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara me faça menos osso e mais verdade"

Hilda Hilst

Mario de Andrade

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.

(A Costela de Grão Cão)


Anita Malfatti
A Bailarina
23 x 30 cm
Óleo sobre tela
Ano: s/d

ref.: a0744



Drummond



Casa onde nasceu Mário de Andrade em 1893, na Rua Aurora nº320.
Curioso exemplar de casa de chácara, como então se dizia, assobradada, ou seja, com um andar sobre porão, de estilo neoclássico, talvez construída em fins do Império. Edificada com recuo em relação à testada, no interior do lote, e com palmeiras imperiais ladeando o portão de entrada.
Registro realizado em 20/07/1946. Fotógrafo desconhecido.
SAN/DIM/DPH/SMC/PMSP



sexta-feira, 2 de outubro de 2009



Hilda Hilst - Do Desejo

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo.

Obriga-me.

(Do Desejo - 1992)