quinta-feira, 30 de abril de 2009

O mundo de Clarice

Virgínia Woolf

...

“Eu queria odiar você, falei: ‘Por que veio? Porquê?´. Eu desejava tua companhia. Passava das onze; fui até a porta com ele e saí na noite fria de Agosto. ‘Venha cá’, ele me disse, ‘Preciso falar uma coisa bem baixinho: Gosto de você, mas não muito. Não quero gostar muito de ninguém’. Então levei um choque e revidei: ‘Eu gosto muito das pessoas ou as detesto. Tenho que ir até o fim, fundo, mergulhar, conhecê-las de verdade!’. Ele foi claro: ‘Ninguém me conhece!’. Então acabou, ponto final. Naquela noite foi duro dormir.”

{ Diário – 18 de Agosto de 1950 }
Sylvia Plath


Edgar Allan Poe (1809 - 1849) 
É verdade! Tenho sido e sou nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso! Mas, por que ireis dizer que sou louco? A enfermidade me aguçou os sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu. Era penetrante, acima de tudo, o sentido da audição. Eu ouvia todas as coisas, no céu e na terra. Muitas coisas do inferno ouvia. Como, então, sou louco? Prestai atenção! E observai quão lucidamente, quão calmamente vos posso contar toda a estória.” (Início do conto O Coração Denunciador ( The Tell - Tale Heart ), de 1843)
Poesia... é outra forma de respirar...

A Língua das Mariposas


As paredes de uma sala de aula não prendem esse professor... Dom Gregorio... Leitor de Kropotkin, amante da liberdade, da natureza, apaixonado pela vida, pela vontade de aprender, de ensinar... paciente... sereno... Moncho se encanta com ele, acha que não ia gostar da escola... bem... "escola" mesmo neste sentido que a gente carrega, não é o que Dom Gregório levava os meninos a gostar... o que Moncho descobre é a vontade de aprender, a sede de saber... curiosidade... descobrir o mundo que o cerca... descobrir a língua das mariposas...  
A solidão exige minha presença...
Não nego,
dela preciso
e me entrego
me deleito
o vinho me acompanha
e sei que não posso deixar o que sou
para ser o que me anula
Calar?
Só aqui, na minha própria solidão
e mesmo assim não é um calar
é um ouvir a minha própria voz...
por isso preciso tanto...
de um momento comigo mesma! 

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Para nós...

"Mããeeee, eu sei a história da Lola... Esse é o Charlie, o irmãozinho da Lola, ela é pequena e muito engraçada... ele falou que tá na hora de dormir, mas a Lola nuuncaaa fica cansada... o Charlie fala que os passarinhos já estão dormindo e a Lola diz: Mas eu nããoo sou um passarinho Charlie! E a Lola fica dizendo que não vai estar cansada as 7, as 8, as 9, nem as 12, e que nem as 13 horas da manhã ela vai estar cansada... nunquinha ela fica cansada..." "É"... a mamãe diz, "parece alguém que eu conheço"... e ela ri... toda engraçadinha, sabendo direitinho que é dela que a mamãe está falando...Ela acaba de contar a história pra mamãe, faz oração, canta, abraça, dá beijinho, fala com o papai no telefone, faz gracinha e... dorme! Boa Noite Clara! Boa Noite Lola! Boa Noite Hipipótimo!" Clarear

terça-feira, 21 de abril de 2009

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Eduardo Galeano

Camilo Cienfuegos


segunda-feira, 20 de abril de 2009

"Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia..."

Clarice Lispector

domingo, 19 de abril de 2009

Frida





Dois Barcos



... É, pode ser que a maré não vire


Pode ser do vento vir contra o cais


E se já não sinto teus sinais


Pode ser da vida acostumar ...


Los Hermanos


Quino


sábado, 18 de abril de 2009

Ernesto




Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu...


Roda Viva (Chico Buarque)


Pra declarar minha saudade

Fiz uma canção/pra declarar minha saudade/do tempo em que a alegria dominou meu coração/ eu era bem feliz/mas desabou a tempestade levando um lindo sonho pelas águas da desilusão/eu fiz uma canção/pra declarar minha saudade/usei sinceridade que me dá certeza que você/quando ouvir o meu cantar vai se lembrar que deixou do lado esquerdo do meu peito essa dor/que tá difícil de curar tenho certeza que você/ de onde ouvir meu soluçar em forma de uma canção/ vai se lembrar que o nosso amor é tão bom/e que pra sempre vai durar/Pra Declarar Minha Saudade (Jr. Dom / Arlindo Cruz) Maria Rita

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida, ou talvez o pior.../Glória e tormento, contigo à luz subi do firmamento, contigo fui pela infernal descida! /Morreste, e o meu desejo não te olvida: queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, e do teu gosto amargo me alimento, e rolo-te na boca malferida. /Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, batismo e extrema-unção, naquele instante por que, feliz, eu não morri contigo? /Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto, beijo divino!/ e anseio delirante, na perpétua saudade de um minuto.../Olavo Bilac

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O amor - Marcel Duchamp

O sono não vem, o que vem são pensamentos, não tão soltos como gostaria, já passam das 2 horas da manhã e o frio chegou até aqui... eu me calei e também não quis ouvir... a vida não cabe em rótulos e formas, em partes pré-fixadas nas paredes e almas... tudo isso me leva pra mais perto do que sou... do que sou agora porque amanhã já serei algo que ainda não sei... e nossos passos se estranham, se confundem, se apartam, dão voltas e perdem a direção... e de repente na noite dessa cidade louca, uma ruazinha de terra em meio a selva de pedra, um lugar perdido a poucos minutos do marco zero... um hiato no tempo e no espaço, uma pergunta em meio a tantas outras que passam a povoar a mente confusa e inquieta... aonde eu estava quando não estava assim em mim?



Clarear


"só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro." Lou Salomé

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ladeiras, igrejas, cemitérios, noite, luzes, silêncios onde repousam passados não esquecidos, momentos tão intensamente vividos, teatro de rua... em frente a Igreja de São Francisco de Assis... Esperando Godot... "Senhor, não mereço isto./ Não creio em vós para vos amar./Trouxestes-me a São Francisco/E me fazeis vosso escravo./Não entrarei, senhor, no templo,/Seu frontispício me basta./Vossas flores e querubins/São matéria de muito amar./Dai-me, senhor, a só beleza/Destes ornatos. /E não a alma./Pressente-se a dor de homem,/Paralela à das cinco chagas./Mas entro e, senhor, me perco/Na rósea nave triunfal./Por que tanto baixar o céu?/Por que esta nova cilada?/Senhor, os púlpitos mudos/Entretanto me sorriem./Mais que vossa igreja, esta/Sabe a voz de me embalar"... como não lembrar, não pensar em Drummond, no seu encantamento diante da obra de Aleijadinho? Então eis que surge Vladimir e Estragon... "Estragon - Espere! Eu me pergunto se não teria sido melhor que a gente tivesse ficado sozinho, cada um por si. Nós não fomos feitos para a mesma estrada./Vladimir - Isso nunca se sabe./Estragon - Não, nunca se sabe nada./Vladimir - Nós ainda podemos nos separar; se você achar melhor./Estragon - Agora é tarde demais./Vladimir - É, agora é tarde demais./Estragon - Então, vamos/Vladimir - Vamos". Becket e Aleijadinho, ali, em frente a Igreja de São Francisco de Assis, como esquecer? E então, eis que algo mais se faz lembrar, porque "de tudo fica um pouco, e se de tudo fica um pouco, mas porque não ficaria um pouco de mim?" E você Carlos, não me deixa caminhar por Minas (nem pela minha saudade) sem ver em cada rua um poema seu....

Clareana TSA



Oh! Nem o tempo amigo/Nem a força bruta/Pode um sonho apagar/Quem perdeu o trem da história por querer/Saiu do juízo sem saber/Foi mais um covarde a se esconder/Diante de um novo mundo...
Beto Guedes


De todas as maneiras...

De todas as maneiras que há de amar/Nós já nos amamos/Com todas as palavras feitas pra sangrar/Já nos cortamos/Agora já passa da hora, tá lindo lá fora/Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração/Que ele está apressado/E desanda a bater desvairado/Quando entra o verão/De todas as maneiras que há de amar/Já nos machucamos/Com todas as palavras feitas pra humilhar/Nos afagamos/Agora já passa da hora, tá lindo lá fora/Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração/Que ele está apressado/E desanda a bater desvairado/Quando entra o verão.

Chico Buarque

Graúna



segunda-feira, 13 de abril de 2009


Para mim, a literatura era algo a ser observado e não analisado ou reduzido ou integrado ao campo da análise. Era um descanso, um pensamento a caminho, uma marca, uma bandeira.

Foucault

"Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo".

Michel Foucault

É crua a vida. Alça de tripa e metal. Nela despenco: pedra mórula ferida. É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. Como-a no livor da língua. Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me No estreito-pouco Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. E perambulamos de coturno pela rua Rubras, góticas, altas de corpo e copos. A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
Hilda Hilst

sábado, 11 de abril de 2009


O meu momento
quando a tarde cai e
tudo é silêncio
e calma
quando posso fechar os olhos
e então ver...
é preciso força pra perceber
quando é preciso escutar a alma
calar
pra então poder ouvir!


Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. Drummond – Amar.

Pós-modernidade




"Dai-nos hoje a nossa fome de cada dia". G. Bachelard



"O tempo, como o espaço, tem os seus desertos e suas solidões". F. Bacon

"Quem não vive o espírito do seu tempo, do seu tempo aproveita apenas os males". Voltaire


“Se não estou equivocado, se todos os indícios que se acumulam são precursores de uma nova reviravolta em minha vida, então tenho medo. Não que minha vida seja rica, nem preciosa. Mas sinto medo do que vai nascer, se apoderar de mim - e me arrastar para onde? Terei que partir novamente ou abandonar minhas pesquisas, meu livro? Despertarei, dentro de alguns meses, dentro de alguns anos, alquebrado, decepcionado, em meio a novas ruínas? Gostaria de me entender com exatidão antes que seja tarde demais.”
Sartre



"Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou." Rubem Alves

“Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí; mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa da segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.” Paul Tillich

“Só concedemos o reconhecimento a um outro livremente e não forçados“.

Rudolf Bultmann, Crer e Compreender

quarta-feira, 8 de abril de 2009

terça-feira, 7 de abril de 2009



Lione al vento, stiam marchando,siam L'armata Brancaleon, Le-e-on, Leon-Leon, Leon-Leon, Branca-branca-leon!


Rumo ao farol


"Sim, a brisa aumentava. O barco se inclinava, as águas eram cortadas profundamente... Cam olhava para baixo examinando a espuma do mar, todo o seu tesouro, e a velocidade a hipnotizava, e o elo entra ela e James se afrouxou, cedeu um pouco. Começou a pensar: como vai rápido. Aonde vamos? e o movimento a hipnotizava, enquanto James, com os olhos fitos na vela e no horizonte, manejava o leme, começou a pensar que poderia fugir, poderia livrar-se disso tudo. Aportariam em algum lugar; e então seriam livres. Ambos se olhavam por um momento, e tiveram uma sensação de fuga e êxtase, em parte com a velocidade, em parte com a mudança".
Virginia Woolf

segunda-feira, 6 de abril de 2009




(...) Quando a consciência da presença latente da violência dentro de uma instituição jurídica se apaga, esta entra em decadência. Um exemplo disso, no momento atual, são os parlamentos. Eles oferecem esse espetáculo notório e lamentável porque perderam a consciência das forças revolucionárias às quais devem sua existência.


WALTER BENJAMIN


Tempos Sombrios


Realmente, vivemos tempos sombrios! A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas denota insensibilidade. Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar. Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes, pois implica em silenciar sobre tantos horrores?
...

B. Brecht


quinta-feira, 2 de abril de 2009

A engenharia cai sobre as pedras/ Um curupira já tem o seu tênis importado/ Não conseguimos acompanhar o motor da história/ Mas somos batizados pelo batuque/ E apreciamos a agricultura celeste/mas enquanto o mundo explode/ Nós dormimos no silêncio do bairro/ Fechando os olhos e mordendo os lábios/ Sinto vontade de fazer muita coisa....
Chico Science
"... Mistério sempre há de pintar por aí...."

Assentamento

Quando eu morrer, que me enterrem na beira do chapadão -- contente com minha terra cansado de tanta guerra crescido de coração Tôo (apud Guimarães Rosa) Zanza daqui Zanza pra acolá Fim de feira, periferia afora A cidade não mora mais em mim Francisco, Serafim Vamos embora Ver o capim Ver o baobá Vamos ver a campina quando flora A piracema, rios contravim Binho, Bel, Bia, Quim Vamos embora Quando eu morrer Cansado de guerra Morro de bem Com a minha terra: Cana, caqui Inhame, abóbora Onde só vento se semeava outrora Amplidão, nação, sertão sem fim Ó Manuel, Miguilim Vamos embora.

Chico Buarque

quarta-feira, 1 de abril de 2009

CDA


“Precisava de um amigo/ desses calados, distantes,/ que lêem verso de Horácio/ mas secretamente influem/ na vida, no amor, na carne/ Estou só, não tenho amigo/ E a essa hora tardia/ como procurar um amigo?” (A bruxa - trecho)