terça-feira, 13 de outubro de 2009

"A gente não fica louca de repente. Não. O enlouquecimento vem aos poucos, diante dos desencantamentos que se multiplicam e crescem cada vez mais. Fica então tudo um desencanto. Fica então uma mancha escura em tudo. Uma ferida. Uma palavra que se anula. Uma palavra que se perde. Uma palavra que deixa de existir. A loucura vem aos poucos, com a destruição de tudo. Os valores estão todos invertidos. A mediocridade ganha o espaço, a violência avança e as pessoas indefesas se escondem dentro de si mesmas, porque temem pela vida. O enlouquecimento vem aos poucos. Vem vagarosamente. Às vezes leva anos até se instalar. Então se instala. Então a gente chora. Depois a gente ri. Depois a gente foge. Depois a gente se procura. Depois a gente não se encontra. Depois a gente corre de encontro aos rios. Depois a gente procura o mar. Depois a gente conversa com as gaivotas. Depois a gente torna a chorar. Depois a gente torna a rir. Depois a gente fica em silêncio. O enlouquecimento vem aos poucos. A solidão também. O nada. O que não resta mais. Depois a gente se rende.

Depois a gente reza. Depois a gente tenta construir um aceno nas mãos e percebe que as mãos foram decepadas. É assim".

Alvaro Alves de Faria

Enlouquecimento

http://blogs.jovempan.uol.com.br/poeta/2009/04/23/enlouquecimento/


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