domingo, 9 de março de 2008

Valei-me profetas! Minas Gerais!


Terá existido em outra parte além do meu arbitrário pensamento? Será tudo que está ligado à consciência, tocando de leve no real sem penetrá-lo está destinado ao fracasso e ao esquecimento? Será que este meu retorno à Minas não é apenas uma reconciliação com o intolorável? Eu quis colocar minha voz a serviço de Deus, isto é, a serviço do homem. Eu tinha um projeto. Nascido do sangue, asfixiei-me no sangue. As terras fartas de Três Pontas conservam meu rastro. Que restará na memória de meus amados, nos quais co-habitam minha ulma de criança e o caos dramático que me meti, dessa mistura de esquinas e perturbações poéticas? Fizeram de mim a voz de Minas, o cidadão do mundo. Depois... um atestado de óbito. Que restará na memória do meu povo? A violência dos termos, traição dos fiéis, imprevidência dos sábios e minha própria cegueira de adivinho? Não. restará a vitória, o meu salto mortal para dentro de uma nova vida. Deixo nas mãos das pessoas honestas e na ferocidade dos críticos minha própria cronologia e a geografia exata do meu coração um lugar vivo de todos os contrários. Este show é um inventário, baseado no meu imaginário pessoal, que transforma minha obra numa declarada reconciliação com a vida perturbadora e desigual. Não teno intensão cultural, estética ou didática. Ele foi concebido para meu benefício próprio, com intenção de louvar a Deus. e neste ato, agradecer aos meus amigos e a vocês, que sei, não deixaram que eu, prematuramente, me transformasse num pasto para os vermes. Milton Nascimento

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