terça-feira, 11 de março de 2008

Proust, os prazeres e os dias



(...) E, nas noites serenas, vastas e secretas, quando a certeza de que ninguém poderia vê-la exacerbava seu desejo, ouvia a voz de Honoré dizer-lhe ao ouvido as coisas proibidas. Ela o evocava por completo, obsedante e oferecido como uma tentação. Certa noite, na hora do jantar, Violante olhou, suspirando, o intendente que estava sentado à sua frente.-Sinto-me muito triste, Augustin -disse. -Ninguém me ama, acrescentou.-Mesmo assim -ele replicou- há oito dias, quando fui a Julianges arrumar a biblioteca, ouvi dizerem a seu respeito: "Como ela é bela!".-Quem disse isso? -perguntou Violante, com tristeza.Um sorriso fraco, mal e molemente, erguia um cantinho de sua boca, como quando tentamos levantar uma cortina para deixar entrar a alegria do dia.-O jovem cavalheiro do ano passado, o sr. Honoré...-Achei que estivesse no mar -disse Violante.-Já voltou -respondeu Augustin.Violante levantou-se imediatamente e, quase tremendo, foi até seu quarto escrever a Honoré para pedir-lhe que viesse vê-la. Ao pegar a pena, teve uma sensação de bem-estar, de um poder ainda desconhecido (...); a impressão de que, no girar de seus dois destinos que pareciam aprisioná-los mecanicamente longe um do outro, ainda poderia, com um estalar dos dedos, fazer com que ele viesse à noite, ao terraço, diferentemente do cruel êxtase de seu desejo insatisfeito (...). No dia seguinte, recebeu a resposta de Honoré, e foi lê-la, trêmula, no banco onde ele a beijara.Senhorita,Recebo sua carta uma hora antes da partida de meu navio. Fizemos uma parada de apenas oito dias e só voltarei dentro de quatro anos. Consinta em guardar a recordação deSeu respeitoso e dedicadoHonoré.(...) Violante desfez-se em lágrimas.-Meu bom Augustin -disse-lhe à noite- aconteceu-me algo que me causou muita infelicidade.A primeira necessidade de fazer confidências nascia-lhe das primeiras decepções de sua sensualidade, tão naturalmente quanto em geral nasce das primeiras satisfações amorosas. Violante ainda não conhecia o amor. Pouco tempo depois, veio a sofrer por amor, que essa é a única maneira que temos de aprender a conhecê-lo. (...) Capítulo 2 - Sensualidade.

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