quarta-feira, 12 de março de 2008

A Bomba


A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores. A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido. A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles. A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna. A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem. A bomba não tem preço não tem lugar não tem domicílio. A bomba amanhã promete ser melhorzinha mas esquece. A bomba não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está. A bomba mente e sorri sem dente. A bomba vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados. A bomba é redonda que nem mesa redonda, e quadrada. A bomba tem horas que sente falta de outra para cruzar. A bomba multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação. A bomba chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés. A bomba faz week-end na Semana Santa. A bomba tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia. A bomba industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários. A bomba sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia. A bomba não é séria, é conspicuamente tediosa. A bomba envenena as crianças antes que comece a nascer. A bomba continnua a envenená-las no curso da vida. A bomba respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais. A bomba pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba. A bomba é um cisco no olho da vida, e não sai. A bomba é uma inflamação no ventre da primavera. A bomba tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria. A bomba tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. A bomba não admite que ninguém acorde sem motivo grave. A bomba quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos. A bomba mata só de pensarem que vem aí para matar. A bomba dobra todas as línguas à sua turva sintaxe. A bomba saboriea a morte com marshmallow. A bomba arrota impostura e prosopéia política. A bomba cria leopardos no quintal, eventualmente no living. A bomba é podre. A bomba gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado. A bomba pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo. A bomba declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade. A bomba tem um clube fechadíssimo. A bomba pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel. A bomba é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris. A bomba oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz. A bomba não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas. A bomba desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas. A bomba não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer. A bomba é câncer. A bomba vai à Lua, assovia e volta. A bomba reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia. A bomba está abusando da glória de ser bomba. A bomba não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável. A bomba fede A bomba é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina. A bomba com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve. A bomba não destruirá a vida. O homem (tenho esperança) liquidará a bomba.
Drummond

Um comentário:

  1. Olá
    Parabéns a vcs pelo seu blog é muito bom
    Amo poesia e Drummond é a poesia
    Abraços,
    Cris
    Se quiser ver meu blog,sintam se a vontade
    http://cristianafonseca.blogspot.com/

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